Título: Vale: Brasil precisa de mais velocidade na aprovação de projetos
Autor: Sonia Racy
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/12/2005, Economia & Negócios, p. B2

O governo Lula está tendo problemas para efetivar gastos registrados e aprovados no Orçamento de 2005. E a iniciativa privada está conseguindo "gastar", ou melhor, investir no que planeja? Para falar sobre esse assunto, esta coluna convidou Roger Agnelli, da Vale do Rio Doce, gigante da América Latina.

A Vale tem cumprido sua programação de investimentos? Em grande parte sim e com eficiência. Contudo, há alguns projetos que não saem do papel por problemas de regulação. Um exemplo: a licitação da Ferrovia Norte-Sul está emperrada. Outros estão ficando para trás pela morosidade na solução de problemas de meio ambiente.

Que tipo de problema? Basicamente de meio ambiente. Essa questão é delicada pois afeta a imagem da empresa, sua competitividade no exterior. É complicado resolver isso no Brasil pois existem várias esferas de governo responsáveis pelo mesmo assunto. Algumas vezes você tem que se dirigir ao município, outras vezes ao Estado, outras à Federação. Há ainda o Ministério Público, audiências públicas com participação da comunidade onde você vai implantar o projeto e que também tem voz ativa no sentido de aprovação ou não de determinado projeto. São várias instâncias que uma empresa tem que atacar para poder ter um projeto aprovado.

Como resolver isso? O fato é que a pior coisa para o meio ambiente é a pobreza, é a falta de alternativa para as pessoas se desenvolverem, ganharem dinheiro para sobreviver. Isso é o que realmente ataca, agride o meio ambiente. Temos regiões no Norte do País, regiões sensíveis como a da Amazônia, que estão sendo agredidas, não por ação ou atitude de uma empresa organizada, estabelecida, que respeita as leis, mas pela própria população que não tem outra alternativa de sobrevivência. Um exemplo urbano disso é a favela. Por falta de alternativa ou política pública, as pessoas acabam derrubando mata, construindo suas casas em lugares perigosos. É um problema que a sociedade brasileira de alguma forma tem que começar a prestar atenção.

Tem gente que diz que o maior problema são as ONGs financiadas por empresas multinacionais. Isso é verdade ? No mundo globalizado, de concorrência muito acirrada, alguns setores do Brasil têm sido objeto de ataques de organizações, algumas internacionais. Elas sempre questionam, por exemplo, a construção de barragens de energia elétrica. Existe uma ONG que é contra as barragens.

Contra qualquer barragem? Contra qualquer barragem. O Brasil ainda tem um grande potencial hidrelétrico a ser aproveitado. Trata-se de energia barata que o Brasil precisa para continuar crescendo, para poder continuar competindo no mundo, para gerar empregos. Se não construirmos barragens, o Brasil terá que optar por uma energia mais cara, o que é um absurdo quando ainda há tanto potencial a ser explorado.

Repito: essas ONGs são financiadas direta ou indiretamente por empresas de outros países, visando a diminuir a competição dos países em desenvolvimento em geral? Existem muitas ONGs sérias, são ONGs que têm filosofia, princípios, objetivos, contribuições a dar. Mas há outras que você não sabe exatamente de onde vêm, como são financiadas, qual a linha de atuação. Não duvido que haja algumas ONGs que defendam interesses econômicos mundiais.

Seria uma atribuição governamental ou da área empresarial saber com certeza a origem das ONGs? Tem de ser governamental porque uma empresa teria mais dificuldades de descobrir de onde vêm os recursos, qual a finalidade, onde fica a sede dessa ONG, que interesse possa vir a defender.

Como atingir o equilíbrio ambiental? Seu projeto tem que agredir o mínimo o meio ambiente - e existe tecnologia para isso -, tem que ser responsável. E, quando a agressão for inevitável, é preciso ter um tipo de compensação, uma forma de o meio ambiente ser reparado. Vários países no mundo se desenvolveram e depois iniciaram um processo de recuperação do meio ambiente. São países bem-sucedidos hoje. Há alguns anos, o Rio Tâmisa estava totalmente destruído e hoje é navegável, dá até para pescar.

Vocês tiveram facilidades para se instalar na China, na África? Há uma similitude muito grande entre esses países em função de problemas de burocracia, de regulamentação, de morosidade na decisão. Na China, você consegue, de certa forma, maior velocidade. Há três anos, fomos à China, sentamos com a Baosteel e ela se decidiu por dois projetos: um no Brasil (Maranhão) e outro na China. O da China já está produzindo; no Brasil ainda estamos discutindo questões do meio ambiente e de localização. Lá, o projeto já está gerando renda, crescimento. É por coisas assim que o Brasil não está conseguindo crescer mais do que 3,5%, 4%.

Por que o projeto no Brasil não sai? Tecnicamente, não há nada que impeça o projeto de US$ 2,5 bilhões. As questões de meio ambiente podem ser contornadas com técnicas, processos, procedimentos que vão deixar o meio ambiente absolutamente inalterado. O problema é que agora se transformou em uma discussão em que todo mundo acha tudo, todo mundo pensa tudo, todo mundo tem um parecer, todo mundo tem um ponto de vista e assim não se consegue implantar nada.

Esse problema de meio ambiente atrapalha muito o desenvolvimento do Brasil? Não sou contra a defesa do meio ambiente e a Vale tem feito tudo o que deve em termos de preservação. Aplicamos o que há de melhor no mundo. Tanto que todas as operações, todas as minas da Vale, têm certificado ISO 14001. Temos a maior reserva privada de mata atlântica, no Espírito Santo, temos uma das maiores áreas de conservação da Floresta Amazônica, em Carajás. Nessa área, utilizamos para mineração menos de 1% do que é preservado de mata primária. O restante a gente defende de incêndios, de invasões, da extração ilegal de madeira. São 1,2 milhão de hectares de floresta que protegemos.