Título: Psicanálise para interpretar Israel
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Fonte: O Estado de São Paulo, 04/12/2005, Internacional, p. A24

Escritora judia analisa o sionismo a partir do paradoxo entre uma causa política secular e sua ligação com uma visão messiânica

LONDRES - A polêmica que as idéias de Jacqueline Rose provocam é, talvez, mais impressionante do que suas próprias idéias. Depois que Rose falou do lado vencedor num debate público sobre sionismo em janeiro, a colunista britânica Melanie Phillips ¿ uma das debatedoras do lado perdedor ¿ a descreveu como um dos ¿três judeus perseguidores de Israel que exibem suas idéias repelentes¿ e a acusou de sugerir implicitamente que ¿os judeus são responsáveis por sua própria destruição¿. No começo de novembro, Amnon Rubinstein sugeriu amargamente, em um artigo publicado no jornal Jerusalem Post sobre livros que falam de sionismo ¿ artigo que incluía The Question of Zion (A Questão de Sion), de Rose ¿, que ¿o presidente do Irã não está sozinho quando quer varrer Israel do mapa¿.

Em seu livro, uma análise do sionismo que examina o paradoxo entre o que era uma causa política secular e sua ligação inseparável com uma visão messiânica, Rose critica o Estado de Israel. De forma mais provocativa, ela traça supostas analogias entre o tratamento dado por Israel aos palestinos e o tratamento dado pela Alemanha nazista aos judeus. Até um resenhista simpático observou que, ¿na consciência judaica, comparar judeus a nazistas está além da blasfêmia¿. Os críticos que não gostaram, por sua vez, sentiram-se ultrajados e expressaram amplamente esse ultraje.

Embora Jacqueline Rose tenha começado a carreira como crítica de literatura infantil do século 19 e ainda seja professora de inglês no Queen Mary College, da Universidade de Londres, ela sempre viu uma ligação clara entre seu trabalho e as questões geopolíticas. ¿É tudo profundamente ligado¿, diz.

¿O interesse na ficção infantil foi um interesse na fantasia coletiva e no que faz uma certa imagem da criança tornar-se estabelecida numa cultura. No caso do escritor J. M. Barrie, eu senti que a paixão pela inocência de Peter Pan estava escondendo uma multiplicidade de pecados em relação a como as crianças estavam sendo tratadas realmente, à ansiedade sexual onipresente e ao que a criança é. Portanto, sempre houve uma idéia, para mim, de que o modo como as fantasias coletivas se organizam pode ser decepcionante, cegante e danoso para aqueles que elas alegadamente representam. A segunda ligação é com a psicanálise, que para mim sempre foi uma forma radical de pensamento. Algo que expõe nossos valores e revela todos os pensamentos problemáticos e desafiadores que se tem, mas não se ousa ter.¿

Em The Question of Zion, portanto, ela se propôs a descobrir o que chama de fantasias que assombraram Israel desde o nascimento. Tentou observar além dos proclamados valores públicos do Estado. Rose aplica psicanálise explicitamente para revelar os segredos, por assim dizer, do sionismo.

Quando indagada sobre se acredita que a democracia israelense tem os recursos para absorver e usar o tipo de crítica que Rose e outros, como o falecido amigo Edward Said, fazem, ela responde: ¿É uma pergunta muito difícil. A psicanálise diz que, se há um sintoma rígido, esse sintoma vai acabar sendo muito caro psiquicamente ou economicamente, e vai deixar de ser viável. Em meu livro sobre sionismo, uma das coisas que mais me deixaram feliz foi descobrir a tradição extraordinária de dissenso dentro de Israel. Parte da minha argumentação é que o sionismo conhece a si mesmo melhor do que aparenta. Na psicanálise, Freud disse que o paciente está em posição de saber e não saber ao mesmo tempo. Acredito que o sionismo é um sistema muito rígido de pensamento, mas com forças incrivelmente criativas correndo paralelas e uma autocrítica no centro. Acredito que o outro lado vai marcar posição. Nesse sentido, estou otimista.¿

Como Rose chegou onde está agora? ¿Sou judia e a questão Israel/Palestina fez parte da minha identidade, cresci como filha da segunda geração de sobreviventes do Holocausto. Foi um processo muito lento de compreender gradualmente que algo estava realmente muito errado no modo como Israel se constituiu e estava se conduzindo.¿

Ela lembra que esse processo acabou tendo um grande impulso por acaso. ¿O momento decisivo foi em 1980, quando visitei Israel pela primeira vez e me encontrei no avião com Dima Habash, sobrinha de George Habash, líder da Frente Popular de Libertação da Palestina. Ela me disse para ir a Ramallah e ver os campos de refugiados. Fomos então visitar Dima em Ramallah, onde a mãe dela estava dirigindo uma missão de ajuda da Organização das Nações Unidas para jovens árabes. Quando chegamos, uma multidão de meninas correu para nós, todas de aventais azuis, incrivelmente animadas com a presença de estrangeiros. Então, elas sorriram e seus dentes estavam todos podres. Não havia dentistas nos campos. Foi uma educação política instantânea da qual nunca me esqueci. Ainda fico arrepiada quando falo sobre isso. Aqueles foram momentos decisivos¿, relata.

A escritora prossegue: ¿Existe uma guerra civil ideológica em Israel. As vozes dos dissidentes e da oposição são muito fortes. Mas acho que as coisas nunca pareceram piores, pois o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, é hoje um herói em Israel para grandes porções da população e a retirada da Faixa de Gaza é vista como um sucesso. Enquanto isso, a anexação de pedaços da Cisjordânia e a construção do muro continuam seguindo no mesmo ritmo. É um momento muito perigoso e muito pessimista. Mas a coisa boa que está acontecendo é que é tão rígido e brutal que vai provocar resistência cada vez maior. E também vai fracassar.¿

Rose conclui com uma comparação: ¿Como W.G. Sebald diz em seu livro Austerlitz, nenhuma fortificação no mundo conseguiu ser bem-sucedida na defesa do que queria defender. Fortificações, como o muro de Israel, alimentam a desconfiança e acabam causando sua própria destruição. Uma fortificação não é algo viável. Portanto, eu diria que a combinação entre a dissidência interna no país e a inviabilidade da solução significa que algo precisa mudar.¿