Título: 'Propostas na OMC não ajudam pobres no Brasil'
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/12/2005, Economia & Negócios, p. B9

Declaração é do presidente do poderoso Comitê de Organizações Agrícolas

O principal sindicato de fazendeiros da Europa alerta: nenhuma proposta sobre a mesa de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) reduzirá a pobreza nas áreas rurais do Brasil. A entidade ainda acusa o Brasil de adotar posições extremas na Rodada Doha e usar o setor agrícola para não fazer concessões em áreas como serviços financeiros, telecomunicações e bens industriais. "Parece que os brasileiros preferem ver o processo fracassado a fazer concessões nos setores industriais e de serviços", afirmou Rudolf Schwarzbock, presidente do poderoso Comitê de Organizações Agrícolas Profissionais da Europa (Copa).

A duas semanas da reunião da OMC em Hong Kong, não há acordo sobre quase nada. Ontem, os ministros não chegaram a um acordo sobre o texto da declaração de Hong Kong e jogam todas as fichas na reunião de amanhã, em Genebra.

"Temo que poderemos ir a Hong Kong sem um texto fechado", alertou o embaixador do Brasil na OMC, Clodoaldo Hugueney. Segundo ele, os progressos são "desapontadores" e o atual texto não é base para completar a rodada em 2006.

Os europeus aceitam cortar em apenas 39% as tarifas de importação de produtos agrícolas e querem corte de até 75% nas tarifas industriais do Brasil. "A UE fez uma tentativa genuína de negociar, mas achamos que agora precisamos retirar a nossa proposta, pois não tivemos a contra-proposta do Brasil nos outros setores ", disse Schwarzbock.

O Itamaraty nega que não tenha acenado com algo novo. O governo indicou que poderia cortar em até 50% as tarifas, se os europeus reduzissem suas tarifas agrícolas em 54%.

Os fazendeiros europeus, organizados em um forte lobby e com freqüentes visitas à OMC, também acusam a agricultura brasileira de ser predatória. "O Brasil tem muitos pobres, mas também tem grandes empresas agrícolas que exportam sem respeitar controles de saúde animal, que pagam salários baixos e geram problemas ambientais. Não há como ser competitivo contra essa agricultura", disse Schwarzkbock, numa entrevista para jornalistas de todo o mundo.

Para ele, seja qual for a proposta aprovada, "todos concordam que isso não ajudará os pobres do Brasil'. "Só as grandes exportadoras ganharão", disse. Em sua avaliação, apenas um pequeno número de países ganharia com o que propõe o Brasil, entre eles os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá.

"Não são os verdadeiros países em desenvolvimento que ganharão," observou. "O que ocorre é que nessas negociações só se escutam as vozes do Brasil e dos americanos e eles só querem vender. Segundo ele, a produção agrícola da Europa cairia com a abertura.