Título: Pastoral acusa CPI de avalizar violência no campo
Autor: Roldão Arruda
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/12/2005, Nacional, p. A21

Em nota, entidade diz que aprovação de relatório de Lupion também 'macula a já desgastada imagem do Congresso'

O relatório aprovado com o voto dos deputados ruralistas na CPI da Terra causou indignação na Comissão Pastoral da Terra (CPT), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e provocou críticas ao Congresso. Em nota oficial divulgada ontem, a CPT diz que a aprovação do relatório substitutivo, na terça-feira, com texto do deputado Abelardo Lupion (PFL-PR), "macula a já desgastada imagem do Congresso" e "consagra a prática da violência" no campo. A nota classifica de farisaica a atitude dos ruralistas da CPI, que pretendiam cortar os recursos federais destinados a entidades ligadas ao Movimento dos Sem-Terra (MST) e que trabalham com famílias assentadas, sob a alegação de desvio de dinheiro para outras finalidades. "Enquanto a Nação está estarrecida diante da corrupção que desvia bilhões em favor da elite econômica, os deputados que aprovaram o relatório se escandalizam diante das possíveis falhas das migalhas destinados aos projetos do campo. A eles se aplica a afirmação de Jesus, que disse aos fariseus: 'Guias cegos, vocês coam o mosquito e engolem o camelo'."

Para a CPT, "o dia 29 de novembro de 2005 ficará para a história como mais um dia em que os senhores da terra e do agronegócio impuseram à Nação a sua vontade, mantendo a intocabilidade da propriedade e a arcaica estrutura agrária de nosso país." O texto termina com uma provocação: "Poder-se-ia esperar outra coisa deste parlamento, que transforma os historicamente malversadores dos recursos e do patrimônio público em arautos da honestidade e da ética?"

Criada em 1975, a CPT dedica-se sobretudo à denúncia e ao combate da violência no campo. No texto distribuído ontem, seus diretores classificam o deputado Lupion como parlamentar "historicamente ligado à grilagem de terras no Paraná".

Segundo o MST, que também divulgou nota ontem, Lupion é ligado à União Democrática Ruralista (UDR) e atualmente "responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) pela prática de caixa 2". Para o MST, a CPI desviou-se de sua finalidade original, que era produzir um diagnóstico sobre a situação agrária, e curvou-se aos "objetivos criminosos e odiosos da UDR".

O texto dos sem-terra também ataca o Congresso: "A Câmara, que deveria ser a representação do povo, demonstra que continua sendo instrumento de defesa dos poderosos de nosso país".