Título: Relação frágil de Dirceu e Lula começou a ruir logo após a eleição
Autor: Carlos Marchi
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/12/2005, Nacional, p. A8

As divergências quase sempre envolviam a discussão de valores ideológicos, dizem os amigos, ele à esquerda e Lula, à direita

José Dirceu e Lula nunca foram amigos e a convivência deles sempre foi marcada por um certo grau de tensão, que era mais penosa quando envolvia valores da esquerda, aos quais Dirceu queria ser fiel, para eventual contrariedade de Lula. A maior fricção se deu porque Dirceu insistia em passar a limpo o lado obscuro do regime militar - as revelações sobre os desaparecidos e a completa abertura dos arquivos da repressão. Contra essa idéia, ergueu-se um paredão chamado Lula, sempre receoso das reações no meio militar, garante fonte da intimidade de Dirceu. As relações entre os dois começaram a se esgarçar depois da vitória de 2002, quando Lula indicou Antonio Palocci para chefiar a equipe de transição, para decepção de Dirceu, que esperava ganhar o cargo por decorrência natural do êxito na coordenação da campanha eleitoral. Já no governo, os atritos se sucederam, até um enfrentamento dramático com Palocci, em agosto de 2004, quando Lula escolheu o lado do ministro da Fazenda. A partir daí, foi morro abaixo, até a demissão, que aconteceu no domingo, 12 de junho - dois dias antes de Roberto Jefferson aconselhar "sai daí, Zé". Lula o chamou e decretou secamente: "Não dá mais".

Daí para a frente, apesar dos panos quentes nas declarações formais, foi uma torrente dissimulada de mágoas que atingiu o ápice no início da tarde do dia 2 de agosto, quando o ministro Márcio Thomaz Bastos chegou à casa de Dirceu alguns minutos antes de ele sair para depor no Conselho de Ética da Câmara, para apelar, em nome de Lula, que renunciasse ao mandato. O argumento, relata agora um amigo íntimo de Dirceu, era risível: Lula considerava impensável "imaginar Dirceu sem direitos políticos por oito anos".

ARREPENDIMENTO

Hoje, o maior arrependimento de Dirceu foi ter ido para o governo. Agora ele sabe que a melhor tática teria sido optar pela "saída Ulysses" (expressão que seus assessores in pectore criaram para lembrar a opção de Ulysses Guimarães, em 1985, ao ser convidado pelo presidente José Sarney para escolher "qualquer ministério"). Teria sido melhor, como fez Ulysses à sua época, presidir a Câmara a partir de 2003 e, ao mesmo tempo, manter o comando do PT, para, com as duas forças na mão, emparedar Lula e virar um homem forte inatingível.

Os aliados resumem o problema do afastamento de Dirceu com objetividade. O PT, opinam, é um contrato entre três pilares - a esquerda (da qual Dirceu é o expoente), os sindicalistas (na qual Lula pontifica) e os católicos de esquerda, que não têm uma liderança clara. Ao demitir Dirceu, Lula "rompeu o contrato", insistem em dizer os amigos, advertindo, ademais, que não foi o sindicalismo nem os católicos que deram consistência ao partido.

A partir de agora, o PT vai ter de operar com os sócios rompidos ou magoados e sabedores que os limites que demarcaram por 25 anos a sua relação estão esgarçados. Há mágoa com a resistência de Lula em acatar projetos caros à esquerda - e isso não começou no governo, mas na aprovação da Carta ao Povo Brasileiro, em junho de 2002, praticamente repudiada por uma entrevista de Dirceu. Característica desse sentimento foi a reação de um dos mais próximos aliados de Dirceu quando ouviu a reedição da velha máxima de que Lula é anticomunista: "Não é que Lula seja anticomunista. O problema é que ele nunca foi de esquerda".