Título: O resultado do 'liberô geral'!
Autor: Marco Antônio Rocha
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/12/2005, Economia & Negócios, p. B2

O Brasil vive um momento que decididamente não contribui para animar os espíritos, nem para um réveillon de esperanças reconfortantes. Sobram motivos para mais do que um marcado interesse pelo futuro que se aproxima - para estarmos preocupados com ele. A inusitada acumulação de nuvens pressagas no horizonte foi inflada pela inoperância governamental, por desavenças irreconciliáveis dentro da cúpula do governo e pela verborréia irrealista e disparatada de quem se supõe que seja o encarregado de indicar bons caminhos e serenar ansiedades. A inoperância está à vista de todos. Na administração pública federal quase nada anda, e o que anda anda mal: na política de meio ambiente, na saúde, na segurança pública, nos ministérios, nas agências reguladoras e até nos mais conceituados órgãos de pesquisa do governo, como a Embrapa. Na educação, a balbúrdia é total, desde o tratamento do problema específico da prolongada greve nas universidades federais até a barafunda de propostas, iniciativas e projetos, que nem saem do papel, sobre uma estratégia para o setor. Na verdade, há sérias indicações de que as coisas andam para trás nessa área, ou seja, o que se havia conseguido de avanço, por exemplo, na avaliação de cursos, escolas, currículos e alunos, foi desfeito ou substituído por inovações pioradas. Espantoso é que ao coro de críticas, reclamos, manifestações de desagrado e de desconsolo em relação à inoperância e inépcia geral se juntam vozes de figuras importantes da situação, do PT, dos partidos que apóiam o governo e de gente de dentro do governo - até mesmo de ministros. Entre quem não é do governo, sobram irritação e impaciência generalizadas pela virtual paralisia e pelos desatinos imperantes no setor público, cujos administradores, trazidos na bagagem do PT, parece que, além de agirem como baratas tontas (diriam nossas avós), também pensam como tais. Quase todas as declarações, opiniões, propostas dessas figuras ou soam bisonhas para a maioria das pessoas sérias, ou são contraditadas no momento seguinte por subordinados ou por colegas de governo. Deveras impressionante. A inoperância inclui a atuação política. Tudo o que é importante para o País, em termos de reformas, inovações, transformações, está completamente paralisado nas gavetas do Congresso ou do Executivo. A mais evidente paralisia agora, para a qual o governo ainda na sexta-feira pensava em providenciar uma cadeira de rodas, ou seja, uma medida provisória para resolver o assunto, é a da aprovação do orçamento, que, se não ocorrer até o final do ano, obrigará a uma convocação extraordinária do Congresso durante o recesso parlamentar. Não que o governo se preocupe com os custos dessa convocação. Preocupa-se, isso sim, com a continuidade do ruído dos trabalhos das CPIs ante a opinião pública e dos efeitos disso sobre sua imagem na entrada do ano eleitoral. O que desejariam esses aprendizes de feiticeiro é que as festas de final de ano e as férias ajudassem a apagar o incêndio, deletando da memória do público boa parte dos desmandos até agora divulgados. E nem nos lembramos mais de tudo o que se atrasou ou se perdeu nas brumas da inoperância: da reforma fiscal, da reforma trabalhista, da sindical, da reforma política, do projeto das Parcerias Público-Privadas (PPPs), etc. Não se culpem as CPIs, já que elas próprias são resultado também da inoperância e da inépcia de quem tem a responsabilidade de comandar e articular o governo. Elas não teriam surgido, nem seriam necessárias, se o bando de zé-ruelas que meteu o PT e o governo num charco - Delúbios, Pereiras, Valérios, Waldomiros, para não falar dos zé-ruelinhas do Palocci, como os Burattis e quejandos, e do próprio Dirceu - não tivesse circulado com desenvoltura nos salões palacianos, conduzindo negócios escusos em nome do PT, sob a comanda complacente "ói, turma, liberô geral!" recebida do seu chefe máximo. Então, em última análise, a inoperância e a balbúrdia administrativas são o corolário da inoperância política de um grupo primitivo de rastaqüeras que tomou conta do governo. É possível pensar que o Partido dos Trabalhadores, como entidade, como conjunto de filiados e militantes, não tivesse idéia de quão rastaqüera era a cúpula que ascendeu ao governo, encarregada de "mudar tudo isso que está aí", e não só não mudou nada, como aprofundou e ampliou a desfaçatez, a canalhice e a ladroeira com que a política sempre foi praticada. Petistas ilustres, escandalizados, botam a boca no trombone. Outros, também ilustres, se mantêm em profundo, mas muito significativo silêncio. Confessamos que em quase 50 anos de jornalismo já soubemos de muitas ladroeiras, acompanhadas de soezes esforços para escondê-las. Mas as atuais espantam pela grandeza, pela ampla disseminação e, sobretudo, pela desfaçatez com que são confessadas, a par da canhestrice alvar com que envernizadas figuras do governo tentam abafá-las ou explicá-las. Não creio que algum jornalista da minha geração se lembre de ter testemunhado semelhante combinação de desrespeito pela opinião pública, de avanço sistemático sobre os cofres da Nação, de negligência e inépcia política em lidar com o problema, de canhestrice nas desculpas e explicações. E quem é o chefe dessa súcia, que até mesmo em política externa está metendo o Brasil em camisa de 11 varas? Recorro a uma ex-petista, a deputada Luciana Genro, ao dizer, com todas as letras, na sessão de cassação de José Dirceu, que não deveria ser este o réu principal no processo, mas, sim, o presidente Lula. E aqui aparece o terceiro fator de desconforto, de constrangimento e de preocupação. É inacreditável a atitude do nosso dirigente máximo em relação a tudo isso. Nem mesmo percebe que a algaravia com que todos os dias nos assola, nas rádios, nas TVs e nos jornais, cada vez mais se compara com a do mais famoso personagem do cinema mexicano, Mario Moreno, o Cantinflas. São bravatas, autocomiseração, reinvenções da História ("nunca se fez tanto isto ou aquilo como neste governo"), conselhos acacianos, prescrições de auto-ajuda, sonhos surpreendentes, como o de "devolver à sociedade o estado de bem-estar social que ela perdeu nos últimos 25 anos", proclamado em entrevista a três emissoras de rádio, na última quarta-feira. Ou seja, a crer no orador, foi a redemocratização, da qual ele se considera um dos autores, que deteriorou "o estado de bem-estar" que a sociedade desfrutou na ditadura. Dizem muitos filósofos e psicólogos que o bem falar resulta do bem pensar. Muitas pessoas iletradas, com pouca instrução, falam de maneira articulada, coerente e sensata, porque sabem pensar. Mas temos também o erudito, altamente instruído, cuja fala é desarticulada, incoerente e ininteligível, porque não sabe pensar - ou pensa que sabe. A fala de Lula parece uma combinação infeliz de ignorância e incoerência. E, no entanto, faz sucesso nos palanques, como as letras de rock pauleira, ou como Chance, o personagem de Peter Sellers em Muito Além do Jardim (Being There) - o jardineiro equivocadamente tomado por formidável guru da economia e das finanças.