Título: Sunitas mudam tática e vão às urnas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 13/12/2005, Internacional, p. A13
Soldados, policiais, funcionários de hospitais e pacientes começaram a votar ontem, três dias antes de o restante dos iraquianos ir às urnas para escolher seu primeiro Parlamento desde a deposição de Saddam Hussein, em 9 de abril de 2003. A Al-Qaeda e outros grupos militantes reduziram o tom de suas ameaças em comparação com as feitas antes das eleições de janeiro. Em outro contraste com relação às eleições de janeiro, que foram boicotadas pela maioria dos árabes sunitas, cerca de mil religiosos sunitas divulgaram comunicado pedindo ao eleitorado que compareça em massa às urnas. No escritório da Federação das Tribos Iraquianas, a cena parecia um retorno aos dias de Saddam. Ao longo das paredes está sentada uma dezena de homens de bigode em uniformes militares, muitos deles ex-oficiais da inteligência e do Exército baathistas. Diante de uma escrivaninha está seu líder.
Mas em vez de dar comandos de batalha como estariam fazendo no passado, os homens estão se preparando para um tipo de campanha completamente diferente. Ao contrário das últimas eleições parlamentares, em janeiro, boicotadas pelos sunitas, esta semana eles votarão em grande número, segundo Hassan Zeidan, um veterano ex-general do Partido Baath.
Isto significa o fim da insurgência de inspiração sunita que se acredita seja liderada por ex-oficiais baathistas como os homens sisudos nesta sala? A resposta é imediata: não. "Enquanto nosso país estiver ocupado, a resistência prosseguirá." Em outras palavras, os sunitas leais ao antigo regime votarão, e continuarão lutando.
Enfurecidos com a presença contínua de forças americanas e o que consideram um controle injusto da polícia e das forças militares iraquianas pela maioria xiita, muitos sunitas esperam conquistar uma fatia maior do novo sistema político do país. Mas muitos ex-baathistas parecem ver sua votação de um modo mais pragmática, e isso não significa que estejam aceitando entrar no novo sistema político, como as autoridades americanas insistem.
Na quinta-feira, os iraquianos escolherão seu primeiro governo permanente desde a invasão americana, pondo em prática a Constituição aprovada em outubro. Será a terceira eleição nacional no Iraque em menos de um ano e a mais importante.
Autoridades americanas destacam que 10 milhões de pessoas votaram no referendo constitucional, 2 milhões a mais que na primeira eleição para o Parlamento de transição em janeiro. A Casa Branca espera um comparecimento ainda maior desta vez, em especial de sunitas, como prova de que a transição para a democracia patrocinada pelos EUA está funcionando. Com o crescimento dos apelos nos EUA para uma retirada das tropas ante uma insurgência que dá poucos sinais de arrefecimento, alguns observadores também vêem na eleição um possível ponto de virada que permitiria o início da retirada com dignidade das forças americanas e britânicas no próximo ano.
Uma pesquisa da ABC News/Time divulgada ontem indicou que a maioria dos iraquianos, cerca de 67%, é contra a presença das forças americanas em seu país. A pesquisa também mostrou que 60% dos iraquianos estão otimistas com relação ao futuro do Iraque e sobre sua vida pessoal.