Título: Juro vai a 17,75%. Ajuste está no fim
Autor: Renée PereiraGustavo Freire
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/12/2004, Economia, p. B1

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu elevar ontem - pelo quarto mês consecutivo - a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto porcentual, para 17,75%. A decisão, unânime, confirmou a aposta predominante do mercado financeiro e levou os juros ao maior nível desde outubro do ano passado. O último corte da taxa Selic ocorreu em abril, quando recuou para 16% ao ano. Em breve comunicado, o BC deu a mesma justificativa da última reunião, em novembro. Na nota, a instituição afirmou que, "dando prosseguimento ao processo de ajuste na taxa de juros, iniciada na reunião de setembro, decidiu por unanimidade elevar os juros para 17,75%, sem viés".

O resultado, que vinha sendo anunciado por 90% dos analistas do mercado financeiro desde o início da semana, provocou, mais uma vez, gritaria geral no setor produtivo e no comércio. Para os empresários, as taxas de juros elevadas podem prejudicar o crescimento sustentado do País, reduzindo investimento e consumo.

Para o mercado financeiro, no entanto, a decisão foi a mais acertada e coerente com a política do BC de conter a inflação com a alta dos juros. Mas, ao contrário da última reunião, os analistas já começam a a enxergar o fim do ciclo de aumento da Selic.

Na opinião do economista-chefe do ABN Amro Asset Management, Hugo Penteado, essa pode ser a última elevação do BC antes da retomada da queda da taxa básica de juros no próximo ano. A explicação está na melhora do cenário econômico interno e externo, que inclui a queda da cotação do dólar (fechado, ontem, em R$ 2,75), recuo dos preços internacionais do petróleo (US$ 44,19, em Nova York, e US$ 42,22, em Londres) e retomada dos investimentos do País, além da queda nas projeções de inflação.

Apesar disso, a expectativa de Penteado é que cortes na taxa de juros só ocorrerão no segundo semestre do ano que vem. Até lá, a Selic deverá se manter no nível atual para garantir a meta de inflação de 5,1% para 2005.

O economista da Gap Asset Management, Alexandre Maia, também acredita que o ciclo de alta do juros está perto do fim. Mas ele não descarta mais uma elevação em janeiro antes do processo de paralisação dos aumentos. "A decisão de ontem ratifica o compromisso do BC com o crescimento sustentado e fortalece a autoridade monetária."

Segundo o economista-sênior do Banco WestLB do Brasil, Adauto Lima, a elevação de 0,5 ponto porcentual deixou claro que o BC quer trazer, não só as expectativas do mercado para o IPCA do próximo ano, mas também a inflação corrente para mais perto do centro da meta de 2005.

Lima acredita, porém, que mais duas elevações da Selic ocorrerão no primeiro bimestre de 2005, mas com intensidade menor, de 0,25 ponto porcentual. A ata da reunião de ontem, que será divulgada na quinta-feira, poderá dar melhor sinalização sobre o início do novo ciclo dos juros.