Título: Longa lista de problemas abrevia lua-de-mel do vencedor
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Fonte: O Estado de São Paulo, 11/01/2005, Internacional, p. A11

A maioria dos líderes recém-eleitos pode contar com um período de graça depois de uma vitória por ampla margem. Mas a lua-de-mel do vencedor da eleição presidencial palestina de domingo, Mahmud Abbas, acabou assim que ele se sentou à mesa ontem. Poucas vezes esperou-se tantas coisas de um líder com tão pouco tempo para realizá-las. Nos próximos dias, o novo presidente, também conhecido como Abu Mazen, precisará retomar as negociações com Israel, iniciar uma série de reformas na Autoridade Palestina e silenciar as armas dos linhas-duras palestinos.

Haverá o incentivo da comunidade internacional e a esperança de palestinos e israelenses de que ele tenha sucesso - mas também o temor espalhado pelo Oriente Médio de que a chance de paz tenha o destino de outras iniciativas e naufrague num novo ciclo de violência.

"As eleições dão legitimidade a Abu Mazen, mas não autoridade", disse Dennis Ross, ex-enviado americano à região. "Os palestinos desejam o fim da ilegalidade e a volta à normalidade. Se ele puder mostrar que está fazendo algo sobre a corrupção, o domínio da lei e a liberdade de movimento, então terá autoridade." Embora tenha elogiado Yasser Arafat durante a campanha eleitoral, Abbas agora terá de desfazer grande parte do legado de seu antecessor.

No topo da lista estão as missões de retomar do diálogo significativo com Israel e convencer o recém-formado governo de unidade nacional, liderado por Ariel Sharon, de que os dois lados podem trabalhar juntos.

Abbas vai se concentrar na obtenção de concessões que façam uma diferença qualitativa na vida dos palestinos. Isto significa a liberdade de movimento nos territórios palestinos, onde comunidades são separadas pelos militares israelenses, e a libertação de alguns dos vários milhares de presos palestinos.

Significará reativar a economia e permitir uma volta à vida normal depois de mais de quatro anos de conflito.

Em troca, Abbas precisa provar que levará suas responsabilidades a sério. Isto significa demitir ex-camaradas de Arafat corruptos e tirar o poder dos senhores da guerra, que controlam grande parte da sociedade na Cisjordânia e Faixa de Gaza.

Ele também precisa implementar reformas urgentes no aparato de segurança, substituindo as várias organizações rivais por três departamentos cujos agentes sejam leais à Autoridade Palestina, publicamente responsáveis e liderados por comandantes respeitados.

Enquanto essas reformas internas estiverem em curso, Abbas terá de enfrentar aquele que pode ser seu maior desafio: silenciar as armas dos grupos militantes, pela persuasão ou pela força.

O Hamas e a Jihad Islâmica, os principais grupos contrários a concessões a Israel, boicotaram a eleição de domingo e não têm mostrado disposição de abandonar a luta armada. Seus homens-bomba estão treinados e prontos para atacar. Se um ou dois conseguirem alcançar um ônibus israelense, todos os sonhos de um futuro melhor poderão dar em nada.