Título: Radicais palestinos desafiam Abbas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 13/01/2005, Internacional, p. A12
Três dias depois da histórica vitória do moderado Mahmud Abbas na eleição para a presidência da Autoridade Palestina (AP) e de sinais que indicaram uma possível distensão no conflito israelense-palestino, atentados, retaliações e a retórica da violência reduziram ontem as esperança de uma retomada do diálogo. Dois membros do grupo extremista Jihad Islâmica infiltraram-se ontem no assentamento judaico de Morag. Um deles, um homem-bomba, tentava içar uma bandeira palestina no local quando se explodiu, matando um civil israelense e ferindo três soldados israelenses. O outro militante foi morto a tiros pelo Exército de Israel.
Em Ramallah, na Cisjordânia, dois suspeitos de pertencer à organização extremista Hamas foram mortos num tiroteio com soldados israelenses que invadiram o edifício onde eles estariam escondidos. De acordo com um porta-voz militar israelense, os dois palestinos portavam fuzis AK-47 e receberam os militares de Israel a tiros.
Ao mesmo tempo, depois de ter anunciado seu apoio às políticas de Abbas, o Hamas - por meio de seu alto dirigente na Faixa de Gaza Mahmud Zahar - esclareceu que não tem nenhum plano para se desarmar nem reconhece no novo presidente palestino autoridade para que ordene o fim dos ataques contra Israel.
A declaração deve complicar os esforços dos novos dirigentes palestinos de reabrirem as negociações de paz com Israel. Na terça-feira, durante um telefonema para Abbas, o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, se disse pronto para reunir-se com o líder palestino. No entanto, Israel exige das forças de segurança palestinas que desmantelem os grupos armados como condição para a retomada do diálogo.
O primeiro-ministro interino da AP, Ahmed Korei, criticou ontem "a continuação das agressões de Israel", após os sinais animadores dos últimos dias. "Lamento que todos esses na direção do diálogo coincidam com uma continuação das agressões israelenses", declarou, após ter sido informado da morte dos membros do Hamas na Cisjordânia.
"Isso demonstra que não há nenhum passo positivo de Israel e que quando falam de medidas de boa vontade, todos sabem que se trata apenas de retórica e manobra", acrescentou, referindo-se à oferta israelense feita na véspera de retirar seus soldados de algumas cidades palestinas em sinal de "boa vontade" com o novo governo da AP.
Abbas tomará posse no sábado, numa cerimônia solene na sede do Conselho Legislativo palestino, informou ontem a AP. A Comissão Eleitoral Central divulgou ontem o resultado oficial da eleição de domingo, na qual Abbas obteve mais de 62% dos votos.
Ontem, o ministro de Relações Exteriores francês, Michel Barnier, disse que visitará os territórios palestinos "nas próximas semanas" para impulsionar o plano de paz mapa da estrada.