Título: Aposentado quer seu dinheiro de volta
Autor: Ariel Palacios
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/01/2005, Economia, p. B3

O argentino Tomás Pico Estrada, de 74 anos, é um dos milhares de credores em todo o mundo que não estão dispostos a aceitar a troca dos títulos velhos da dívida pública da Argentina pelos novos, que sofrerão um drástico corte do valor original. Pico Estrada, um engenheiro industrial aposentado, quer reaver a totalidade do valor de seus títulos, os Global 2006, que venciam no ano que vem. Irritado com o calote que lhe tirou a oportunidade de uma velhice tranqüila, Pico Estrada está disposto a conseguir, na Justiça, o dinheiro tomado pelo Estado argentino. Para isso, entrou com um processo em Nova York, onde encabeça um processo coletivo contra o Estado argentino nos EUA. "Minha intenção é continuar o processo na Justiça", disse ao Estado. "Nunca pensei em aceitar a troca da dívida."

Em 1997 o aposentado adquiriu títulos Global 2006 por US$ 90 mil. "Esses títulos estavam muito bem cotados. Na época, era inimaginável que pudesse ocorrer algo como o default." Os desgostos de Pico Estrada começaram quando o então ministro da Economia, Domingo Cavallo, confiscou o dinheiro dos bancos (o corralito). O confisco foi seguido pela decisão do presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá, que declarou o default da dívida pública em 23 de dezembro de 2001.

Pico Estrada só percebeu que, além de ser vítima do corralito, também havia sido atingido pelo calote quando, em 19 de abril de 2002, foi ao banco receber os juros dos títulos e recebeu a notícia de que o governo não lhe pagaria coisa alguma. O calote não diferenciou os pequenos investidores (muitos dos quais aposentados), dos fundos especulativos e fundos de pensão e investimentos.

Do choque nervoso sofrido no interior da agência, ele só despertou três dias depois, com sua esposa observando-o com os olhos marejados. O câncer de próstata é tratado graças a um bom seguro de saúde. No entanto, admite que sua vida sofreu uma guinada, e seu dia-a-dia é muito mais austero do que eles haviam planejado.

Mas Pico Estrada ainda tem esperança. "Acredito que a maioria dos credores continuará lutando, pois a oferta é tão mesquinha que as pessoas não podem se resignar a receber apenas uma pequena parte de um dinheiro que é delas." Ele quer receber seu dinheiro já, pois não poderá ficar esperando o pagamento dos bônus, que no melhor dos casos têm 30 anos de prazo. "Teria de ser um homem centenário para ver a cor do dinheiro. E tem mais: se eu não viver até lá, isso talvez fique para meus filhos ou meus netos. Mas quem garante que o governo argentino não vai dar um novo calote?."