Título: Embaixadores defendem importância do inglês
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/01/2005, Nacional, p. A6
A decisão do Itamaraty de acabar com o caráter eliminatório da prova de inglês no concurso para novos diplomatas provocou reações em todos os escalões do ministério, de terceiros-secretários a embaixadores em fim de carreira. Uma delas aconteceu na última sexta-feira, quando o embaixador do Brasil em Cingapura, João Gualberto Marques Porto, encaminhou uma carta indignada ao idealizador da medida, o secretário-geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães. Para Marques Porto, qualquer diplomata escalado para trabalhar nas Filipinas e que não saiba falar tagalog - o idioma local - terá de se valer de uma boa fluência em inglês. Aposentado da carreira diplomática, o embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), também mostrou-se contrariado e sugeriu que o Itamaraty deveria acrescentar a prova de espanhol como eliminatória, ao lado do exame de inglês. Botafogo, que chefiou a área econômica do Itamaraty e foi ministro da Indústria e do Comércio, tornou-se um dos maiores especialistas em negociações comerciais e encerrou sua carreira, no ano passado, como embaixador do Brasil na Argentina.
"Na minha época, o concurso tinha as provas de português, de inglês e de francês como eliminatórias. Fui reprovado na primeira vez que tentei entrar no Itamaraty por causa do francês. Agora, querem baixar o nível dos futuros diplomatas", lamentou.
Adotada em dezembro passado, a iniciativa foi justificada pela cúpula do Itamaraty como um meio de "oxigenar" a carreira, ou seja, de possibilitar o acesso à carreira de pessoas com experiências e origens diversas. A amigos que o questionaram sobre a decisão, Pinheiro Guimarães justificou que o número de candidatos - cerca de 4.000 por concurso - é muito baixo e que o total de aprovados nem sempre cobre as vagas disponíveis. Uma das ambições do secretário-geral é a elevar o atual número de diplomatas, de 997, para cerca de 1.400 até o final de 2006.
Na teoria de Pinheiro Guimarães, com o fim do caráter eliminatório da prova de inglês, mais brasileiros se animariam a passar pelo teste. Para o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a iniciativa acabaria com o "fator elitista" do concurso, ao favorecer candidatos de classes menos abastadas, que não puderam se aprofundar no estudo de inglês. O Instituto Rio Branco, dedicado à formação dos diplomatas, se encarregaria de reforçar, posteriormente, o ensino dessa língua.
No seu telegrama a Pinheiro Guimarães, Marques Porto rebate todos esses argumentos. Ele alega que o inglês, devido à sua praticidade e precisão, tornou-se um pré-requisito para que o Brasil mantenha sua respeitada presença nos foros internacionais e em suas relações bilaterais. Conforme argumentou, o conhecimento do idioma é obrigatório para que representantes brasileiros estejam presentes nas reuniões decisivas que se dão, em geral, às margens de encontros oficiais. Mesmo os antiamericanos reconhecem o valor do idioma na diplomacia, insistiu.
Ele rebate também o "efeito democratizante" da iniciativa ao comentar que o difícil acesso de pessoas de baixa renda a idiomas estrangeiros não justifica "que se mutile a reconhecida capacidade de comunicação da diplomacia brasileira". E adverte: "Toda conotação imperialista do idioma inglês se esbateu ante sua praticidade e precisão, que lhe deram caráter de língua franca , reconhecido mesmo pelos inimigos da cultura anglo-saxã."