Título: Futuro de Kirchner depende da dívida
Autor: Ariel Palacios
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/01/2005, Economia, p. B5
A ambiciosa operação de troca da dívida pública com os credores privados iniciada na sexta-feira pelo governo argentino não só será decisiva para o futuro financeiro do país, como definirá o destino político do presidente Néstor Kirchner e do ministro da Economia, Roberto Lavagna. Para Kirchner, o sucesso na troca da dívida é fundamental para garantir seu lugar nos livros como o presidente que reduziu o peso da dívida. Mas, antes disso, seu interesse são as eleições parlamentares de outubro. Se conseguir êxito na reestruturação, seu prestígio será significativamente reforçado, com a bênção das urnas. As eleições serão decisivas porque renovarão metade do Parlamento. Serão também o primeiro teste eleitoral de Kirchner desde a posse. E a nova ida às urnas é crucial, pois ainda pesa sobre o presidente o fato de ter sido eleito com apenas 22% dos votos. As eleições também definirão o poder de Eduardo Duhalde, ex-padrinho político de Kirchner, que ainda é um pedra no sapato presidencial.
Se a reestruturação fracassar, Kirchner perderá prestígio e apoio dos empresários. Isso implicaria um desempenho fraco nas eleições, complicando a administração da segunda metade de seu governo.
A Lavagna, o sucesso na reestruturação - ou seja, uma adesão de 80% dos credores - proporcionaria prestígio para se candidatar à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Esta ambição é confirmada por integrantes do círculo íntimo do ministro. Lavagna quer suceder Enrique Iglesias, atual comandante do influente organismo financeiro. No BID, Lavagna poderia aspirar a outra ambição: ocupar a Casa Rosada, o palácio presidencial argentino.
A reestruturação reduzirá o valor dos títulos em default de US$ 81 bilhões para US$ 38 bilhões a US$ 41 bilhões.
Nos últimos dias, os economistas mostraram-se menos pessimistas com as chances da operação. Os mais moderados estimam uma adesão de 60% a 65%; outros já falam em superar os 75%, que é o piso exigido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).