Título: Lula vai prestar contas e cobrar participação na luta contra a fome
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/01/2005, Nacional, p. A4
Quatro meses depois de lembrar para líderes de mais de 60 países, em Nova York, que as Metas do Milênio podem tornar-se "letra morta" por falta de vontade política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai conclamar a sociedade civil internacional a fazer a sua parte. No próximo dia 27, ao discursar para uma platéia hostil à globalização, na quinta edição do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, Lula afirmará que os países em desenvolvimento também têm papel fundamental no combate à fome e à pobreza e não podem se omitir nessa batalha. Se às margens do Rio Guaíba o presidente está disposto a fazer uma espécie de prestação de contas para seduzir um público que tem ojeriza ao ajuste fiscal e anda ressabiado com os rumos da administração petista, em Davos, na Suíça, o tom de seu discurso será completamente diferente.
Em Porto Alegre, Lula falará sobre o que já mudou desde que tomou posse. Mais: destacará que pôs o flagelo da fome no centro da agenda do mundo inteiro. Um dia depois, ao participar do Fórum Econômico, em Davos, ele vai reiterar para 25 chefes de Estado, centenas de políticos e importantes homens de negócios que falta muito a ser feito para cumprir as Metas do Milênio, sobretudo no que diz respeito à erradicação da pobreza.
MODELO
"No Fórum Social, falando para um público tão amplo, o presidente vai recapitular toda a preocupação central de seu governo: o modelo de desenvolvimento que propicia a inclusão social", afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, numa referência às mais de 100 mil pessoas esperadas para o encontro. Já em Davos, no fórum econômico, ele vai reiterar que a ceia do planeta ainda não foi repartida. "Depois, em seminário para investidores, apresentará os encantos da economia brasileira", completou Marco Aurélio.
Convidado pela entidade Global Call for Action Against Poverty (Chamada Global para Ação contra a Pobreza) para participar do lançamento da campanha pelo cumprimento das Metas do Milênio, Lula aproveitará as poucas horas em que permanecerá no fórum de Porto Alegre para vender as "realizações" de seu governo na área social.
No pronunciamento preparado sob encomenda para mostrar que o Brasil está fazendo sua parte tanto dentro de casa como no cenário internacional, o presidente vai citar não só o programa de transferência de renda batizado de Bolsa-Família - sob o guarda-chuva do Fome Zero - como dados que indicam a retomada do crescimento econômico, com geração de empregos.
A Global Call, no entanto, acha que só discursos não bastam e promete pressionar os governantes para que cumpram os compromissos assumidos em reuniões de cúpula dos países ricos - como o de destinar 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) para reforçar a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento. Abrigando cerca de 70 organizações não-governamentais do mundo inteiro, a Global Call pode ser definida como uma "coalizão de ongs".
Reunidas em Johannesburgo, na África do Sul, em setembro do ano passado, essas ongs aprovaram reivindicações em torno das quais prometem fazer barulho em Porto Alegre. Na lista estão o cumprimento das Metas do Milênio - documento que traz oito objetivos globais nos campos econômico, social e ambiental, que devem ser atingidos até 2015 - e a defesa do calote das dívidas externas.
"Calote político, social e ético é o que os líderes mundiais estão fazendo", reagiu o empresário Oded Grajew, ex-assessor de Lula e um dos idealizadores do Fórum Social Mundial. "Em 2000, ao assinarem a Declaração do Milênio, eles fizeram discursos, tiraram fotos e até hoje a fome continua matando 24 mil pessoas por dia, 11 crianças por minuto."