Título: Camisetas e bandeiras do PT encalham nas bancas
Autor: Vera Rosa, Lisandra Paraguassú
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/01/2005, Nacional, p. A6
Às margens do Guaíba, chapéu vermelho na cabeça para se proteger do sol , o baiano Humberto Jesus da Silva era a expressão do desânimo na tarde de ontem. Com 53 anos, militante do PT e aposentado, Silva nunca pensou em passar maus bocados para defender seu partido justamente em Porto Alegre, que até as eleições de outubro foi a capital do petismo. Mas, depois de dois dias sem vender uma única camiseta com a fisionomia do presidente Lula, ficou aperreado e tomou uma atitude radical: pôs o PT em liquidação. "Era R$ 15 e agora é R$12", dizia ele, ao anunciar a pechincha para as camisetas da série Lula presidente, que tinham até o slogan "A Esperança venceu o medo", da campanha de 2002. O mesmo preço valia para bandeiras do PT e CDs com os jingles que embalaram os petistas nos últimos anos.
Enquanto a pilha petista estava encalhada, o líder guerrilheiro Che Guevara fazia sucesso e não precisava de desconto. Militantes pagavam com gosto R$ 15 pela lembrança do ídolo. Alguns até achavam barato.
Na calçada da Usina do Gasômetro, a banquinha de Silva virou um ponto de encontro para discutir os rumos do governo Lula. Estrategicamente situada perto do Acampamento Intercontinental da Juventude, ela estava bem sortida, recheada de buttons, camisetas, bandeiras, CDs e até livros com a biografia do presidente.
ODARA
"Lula e o PT não estão vendendo nada. Não era para acontecer isso", lamentava Silva. "Esse governo tem de melhorar para aumentar mais as minhas vendas. Assim não dá." Mas nem tudo estava perdido. Para salvar o dia de Silva, um argentino acabou comprando uma camiseta com o rosto de Lula, no fim do expediente odara. "Você me deu sorte", brincou ele.
Perto dali, no acampamento da Juventude - que abriga 41 mil pessoas do mundo inteiro -, iglus e barracas multicoloridas de náilon mostravam por que o fórum é mesmo um Woodstock tropical. Paz e amor, naquele espaço, é o grito de vários sotaques para jovens que acreditam que um outro mundo é possível.
Na "avenida" de terra batida chamada de Chico Mendes, o auxiliar de mecânica Caco Rocha, de 26 anos, idealizou um movimento de protesto ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. "Ele representa tudo o que há de mal", resumiu. Com um livro de assinaturas exposto em sua barraca, Caco recolhia xingamentos a Bush. "É um protesto tão mal-educado quanto ele é com o mundo."
A poucos metros de Caco, uma faixa fincada na barraca vizinha pregava "Morte ao imperialismo". Com o símbolo de uma suástica estilizada, outra era mais direta: "Bush, tire as patas do Iraque. A juventude pede paz."