Título: 'Eles não teriam coragem de me matar'
Autor: Carlos Mendes
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/02/2005, Nacional, p. A4
Ela tinha um idealismo contagiante, raro em uma mulher de 73 anos. Fala mansa, palavras recheadas de esperança em uma vida melhor para os assentados de seu Projeto de Desenvolvimento Sustentado (PDS) em Anapu, a missionária Dorothy Stang parecia não temer as ameaças que a cercavam. "Os pistoleiros não teriam coragem de matar uma mulher velha como eu", disse ela, ao dar sua última entrevista ao Estado, dez dias antes do crime. Amada pelos lavradores pobres, mas odiada por fazendeiros e madeireiros da região sudoeste do Pará, ela era chamada de "santa" pelas famílias a quem atendia, e de "satanás da Transamazônica" por seus desafetos. "Sei que eles querem me matar, mas não vou fugir. Meu lugar é aqui, ao lado dessas pessoas constantemente humilhadas por gente que se considera poderosa", afirmou irmã Dorothy, em sua última entrevista a um jornalista do Pará, na quarta-feira, dia 2 de fevereiro. A seguir, os principais trechos da entrevista, que não chegou a ser publicada:
Irmã Dorothy, o projeto em que a sra. trabalha está indo bem?
Não, não está nada bem. Nosso povo anda angustiado com a demora do Incra em fazer a marcação dos lotes. Os fazendeiros e os madeireiros estão com vários pistoleiros espalhados pelo PDS.
O que eles estão fazendo?
Eles invadem os lotes, apontam armas e ameaçam matar o nosso povo, tudo na frente de crianças, doentes e idosos. É um sofrimento muito grand e.
E isso está sendo comunicado às autoridades do Pará e federais?
Já fizemos isso várias vezes, mas eles, a polícia de Anapu e da região, quando aparecem por lá, ao invés de desarmar os pistoleiros, prendem e tomam as espingardas dos trabalhadores. Você sabe, a espingarda é arma para caçar e também para o povo se defender de quem o ameaça.
A senhora não deveria tomar mais cuidado com a sua segurança?
Meu caro, os pistoleiros não teriam coragem de matar uma mulher velha como eu. Eles querem matar os mais novos.
Fala-se que é gente de fora do Pará, muitos até foragidos da polícia e da Justiça de outros Estados ...
Eu acredito em Deus e sei que ele está comigo. Mas prefiro falar de vida, não de morte. O povo tem um projeto de uma vida melhor com o PDS. Não tenho tempo de pensar em coisa ruim. Mas, se eles me matarem, eu gostaria de ser enterrada em Anapu, junto daquele povo humilde. Para mim, nada substitui a alegria de ver o nosso povo feliz. Quero ainda viver muito para ver a alegria completa deles, todos assentados no PDS.