Título: Brasil afinado com os EUA. E daí?
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/12/2005, Economia & Negócios, p. B12

Para alguns setores, a rara aproximação brasileira com americanos na OMC poderá abrandar o discurso contra subsídios

Como poucas vezes na História, o Brasil chega a uma conferência ministerial com um discurso afinado com o dos Estados Unidos, para desespero de alguns setores produtivos. O governo, porém, promete vir a Hong Kong disposto a negociar com os europeus para tentar superar as diferenças na reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). 'Não desistimos. Há muito em jogo para o Brasil, e essas negociações determinarão o cenário comercial no qual o País estará inserido nos próximos 10 ou 15 anos", diz o embaixador do Brasil na OMC, Clodoaldo Hugueney. O Brasil estará representado em Hong Kong por cerca de 40 pessoas, entre eles cinco ministros: o chanceler Celso Amorim, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, o da Agricultura, Roberto Rodrigues, o do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e o da Pesca, José Fritsch. Deputados e senadores também farão parte da comitiva. Quanto aos representantes de indústrias, setor agrícola e ativistas, Hong Kong terá uma participação recorde de brasileiros.

A aposta do Brasil na OMC tem um motivo: é no âmbito multilateral que o governo acredita que poderá ter algum sucesso em reformar as regras comerciais. "O que está em jogo em Hong Kong é a capacidade de termos uma organização que funcione e que dê resultados. Será apenas no âmbito multilateral que teremos uma defesa contra pressões e poder. Por isso precisamos de resultados nessa rodada e mudanças na política agrícola dos países ricos" , argumenta Hugueney.

Um dos principais objetivos do Brasil será o de garantir que a negociação continue caminhando para reduzir as diferenças entre a forma que a agricultura e os produtos industriais são tratados. Há 40 anos as tarifas para produtos industriais vêm caindo, e os subsídios aos setores de manufaturas são proibidos há décadas. "Por isso dissemos que as ofertas européias são insuficientes, pois ao invés de reduzir as diferenças entre agricultura e produtos industriais, o que ocorre é exatamente o aposto", afirma Hugueney.

Pela proposta européia, os cortes de tarifas para produtos agrícolas seriam de 39%, contra uma redução de 75% nas tarifas industriais. "Isso é fora de proporção" , diz o diplomata. Para o Itamaraty, são os europeus que precisam se mover primeiro para que haja uma nova oferta brasileira. Para Pascal Lamy, diretor da OMC, todos precisam flexibilizar suas posições.

Um tema que ainda pode entrar nos debates em Hong Kong é o dos setores que permanecerão protegidos, seja na agricultura seja no setor industrial. O Brasil já começou a montar uma lista dos setores que continuariam a ganhar certas proteções, entre eles o de automotivos e eletroeletrônicos. Já os europeus querem uma proteção extra para setores como o de carnes, açúcar e lácteos.

ALIANÇA

Nas últimas semanas, um grupo de países que incluía o Brasil, Estados Unidos, Europa, Austrália, Japão e Índia passou a se reunir com freqüência para evitar um fracasso em Hong Kong. O presidente Lula chegou a propor uma cúpula para destravar o processo e se aproximou dos EUA contra a rejeição européia por um corte de tarifas.

Para Pedro Camargo Neto, da Sociedade Rural Brasileira, o governo errou ao se aliar aos Estados Unidos. "Corremos o risco de voltar sem nada", alerta. "Precisávamos pressionar os dois: a Europa em acesso a mercado e os americanos no capítulo sobre subsídios. É inaceitável voltar sem um acordo sobre o fim dos subsídios".

Hugueney, porém, nega que o Brasil tenha montado uma aliança com os Estados Unidos para pressionar a Europa: "Estamos tomando uma posição de eqüidistância entre europeus e americanos. Continuamos criticando os Estados Unidos por sua proposta de cortes de subsídios. Mas eles pelo menos nunca disseram que essa seria sua última oferta, como dizem os europeus".

O certo é que o Brasil, às vésperas de Hong Kong, até desistiu de retaliar o governo americano no caso do algodão e fechou um acordo temporário com a Casa Branca. O Brasil havia ganho o processo na OMC e poderia retaliar os produtos americanos em bilhões de dólares.

O Brasil ainda aposta na rodada para crescer e reduzir a pobreza. Para o Banco Mundial, os ganhos com uma liberalização podem ser de US$ 350 bilhões até 2015, gerando uma redução da pobreza em 8% no mundo. Para a FAO, órgão da ONU, não há dúvida: o Brasil será o país em desenvolvimento que mais ganhará com a abertura.