Título: Em NY, os brasileiros que fazem dinheiro
Autor: Joseph Berger e Fernanda Santos
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/12/2005, Metrópole, p. C9

NOVA YORK - Ricardo Stefano passa 11 horas por dia, cinco vezes por semana, engraxando sapatos perto da Estação Grand Central, em Nova York, desde que chegou à cidade, há 15 anos. O trabalho foi um rebaixamento em relação à atividade que tinha no Brasil, consertar óculos na ótica do pai, particularmente por ter cursado um ano de faculdade. Alguns amigos contaram a Stefano que ele poderia ganhar muito mais engraxando sapatos em Nova York do que consertando óculos no Brasil. O conselho se tornou realidade. Aos 43 anos, ele ganha US$ 500,00 (R$ 1.165,95) por semana. Envia metade à mulher e aos três filhos, que ainda vivem em Minas. Stefano não vê os filhos desde que partiu, mas não lamenta sua escolha.

"Quando você vem para este país, sabe o tipo de trabalho que vai encontrar, porque você não fala a língua, não tem os papéis," diz. "É o preço que você paga."

Os imigrantes brasileiros na área de Nova York estão se destacando como um dos grupos étnicos que mais crescem na cidade. Mas, diferentemente da maioria dos latino-americanos que chegam à cidade pobres, com pouca educação e dispostos a cruzar a fronteira ilegalmente, os brasileiros tendem a vir de famílias de classe média, são bem escolarizados e têm condições de entrar nos EUA legalmente, de avião.

Especialistas nesses imigrantes, como Maxine L. Margolis, uma professora de antropologia da Universidade da Flórida em Gainesville, diz que muitos brasileiros entram com vistos de turistas, o que requer comprovação de emprego e contas de poupança. Uma vez dentro dos Estados Unidos, deliberadamente, ficam no país depois de expirar o prazo do visto.

Mesmo aqueles com formação universitária mostram-se dispostos a trabalhar como faxineiros , motoristas de limusines e dançarinos de discotecas. A explicação é simples: os subempregos nos EUA pagam salários melhores do que trabalhos mais nobres na ainda vulnerável economia brasileira.

"No Brasil, você tem qualidade de vida, mas não tem segurança financeira", diz Jamiel Ramalho de Almeida, um cabeleireiro que veio de Belo Horizonte depois de se formar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Almeida tem uma dicção impecável e possui o Ipanema Beauty Salon em Astoria, bairro de Queens. "Quando você pega gosto pela boa vida, é difícil voltar para o que era antes."

Já vieram tantos brasileiros para cá que eles transformaram bairros como Astoria e Ironbound, em Newark, New Jersey. Juntas, essas áreas abrigam duas dezenas de restaurantes típicos, três nightclubs, várias casas de massagens e supermercados que vendem produtos para feijoada e outras receitas bem tupiniquins. Há também grandes concentrações de brasileiros em Mineola, Port Chester e Mount Vernon, em Nova York, Long Branch, em New Jersey, e Danbury, Connecticut.

O censo de 2000 contou 13 mil nova-iorquinos de ascendência brasileira, 3.272 deles em Astoria, mas o consulado brasileiro acha que esses números estão muito aquém do real. Segundo o cônsul geral brasileiro em Nova York, José Alfredo Graça Lima, uma estimativa do censo de 2004 avaliou em 42 mil os brasileiros no Estado de Nova York, 51 mil em New Jersey, e 18 mil em Connecticut. Os números têm como base assinantes de televisão brasileira via satélite. Mesmo assim, o diplomata acha que a situação real poderia perfeitamente ser o dobro disso.

NÍVEL SUPERIOR

Os imigrantes brasileiros incluem uma proporção incomum de pessoas bem-educadas. O censo de 2000 revela que 30,8% dos brasileiros na cidade tinham formação universitária, mais do que o triplo de outras nacionalidades da América Latina, como os mexicanos, com 8,6%, ou equatorianos, com 9,4%.

Entre os imigrantes com nível superior está a mineira Marcia Duarte, de 45 anos, dona de um exuberante sorriso e de um diploma de psicóloga. Ela deixou o emprego no setor de recursos humanos de uma empresa, em Belo Horizonte, e o primeiro trabalho que encontrou nos EUA foi como babá. Hoje, Marcia é assessora de um executivo e tem salário de US$ 47 mil (R$ 109.599,30) anuais, cerca de cinco vezes mais do que recebia antes de emigrar.

"Ganhar dinheiro no Brasil é sempre um problema", observa Marcia. Com os dólares obtidos nos EUA, a mineira consegue viajar duas vezes por ano ao Brasil, para rever a família. E se tudo der certo, volta em definitivo em quatro anos.