Título: Porto do Rio dobra exportações
Autor: Alberto Komatsu e Nilson Brandão Junior
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/12/2005, Economia & Negócios, p. B7

A quantidade de carros embarcada para o exterior a partir da Baía da Guanabara vai duplicar este ano na comparação com 2004. O volume registrado no Porto do Rio, encravado na baía, será o maior desde o fim da década passada: 160 mil unidades, o dobro dos 80 mil em 2004. Parte da carga era embarcada em portos de São Paulo. O forte crescimento, contudo, já provoca, segundo uma das empresas, sinais de gargalo, o que a administração do porto nega. A General Motors do Brasil tem sido uma das principais responsáveis pelo crescimento da utilização do Porto do Rio para a exportação. A montadora começou a escoar regularmente parte das vendas externas pelo terminal carioca em fevereiro deste ano, pela primeira vez em sua história, basicamente para o México. Até novembro, foram 35 mil unidades.

A montadora prevê exportações de 200 mil automóveis este ano, dos quais 40% pelo Rio. Outros 50% seguirão pelo Porto de Santos por meio do sistema CKD (desmontados) e os 10% restantes pelo Porto de São Sebastião. ¿Sempre usamos o Porto de Santos, mas ultimamente há congestionamento muito grande para estacionar os veículos e no atraque dos navios¿, afirma o diretor de logística da GM para a América Latina, África e Oriente Médio, Edgard Pezzo.

Segundo o executivo, a redução do uso do Porto de Santos foi de 40%. ¿Já pensamos em utilizar o Porto de Sepetiba (no Estado do Rio), mas por enquanto ainda não há viabilidade¿, informa Pezzo. Segundo ele, a GM assumiu uma perda financeira (não revelada) para usar o Porto do Rio, já que a distância em relação a Santos é quase duas vezes maior, mas que acaba sendo compensada por causa da flexibilidade na operação.

Para clientes, contudo, o avanço da carga processada no Porto do Rio já estaria causando efeitos colaterais. ¿No meu ponto de vista, já existe gargalo no Porto do Rio por causa do novo relacionamento das montadoras com ele. Há filas monstruosas de caminhões cegonha lá¿, alerta o diretor de Logística Automobilística da Gefco, José Otavio Stafleu. A Gefco é responsável por toda a logística das exportações da Peugeot e da Citroën. O Porto do Rio responde por 97% das exportações do grupo PSA, que agrupa as marcas francesas Peugeot e Citroën, e tem uma fábrica em Porto Real, na região sul-fluminense. A montadora utiliza esse terminal desde 2001. Entre 2004 e 2005, o grupo de origem francesa praticamente duplicará as exportações de carros fabricados no Rio, num total perto de 20 mil unidades. A Companhia Docas confirma o crescimento de movimentação, mas nega problemas.

¿O Porto do Rio não teve problema de congestionamento. Está dimensionado para isso e ainda tem capacidade. E também estamos investindo bastante¿, afirma o presidente da Docas, Antonio Carlos Soares Lima. Ele cita que há investimentos para facilitar o acesso ao porto. Uma das alternativas será a remoção de 290 famílias que moram na Favela do Arará, na margem da ferrovia que vai até o porto, além da construção de novo acesso rodoviário.

O presidente da Docas diz que, desde o segundo semestre do ano passado, a Volkswagen também passou a exportar automóveis pelo porto. O diretor da VW Transport, Richard Schues, explica que com a saturação do Porto de Santos as montadoras passaram a buscar alternativas. Entre 10% e 15% das exportações de veículos leves e 80% dos caminhões exportados são movimentados pelo Porto do Rio. Os carros são fabricados em Taubaté (SP) e os caminhões em Resende (RJ).

Schues diz que em alguns meses deste ano o porto sofreu com o aumento de veículos embarcados, mas afirma que a empresa não enfrentou problemas. Além da VW, grupo PSA e GM, a Fiat também movimenta veículos e peças pelo Rio. A montadora informa que este ano deverá exportar 100 mil veículos, na média histórica da empresa, mas acima dos 70 mil do ano passado. Cerca de 90% são embarcados no Porto do Rio, onde concentra exportações.

O restante é embarcado nos portos de Vitória (ES), Santos e São Sebastião. A Fiat confirma que a estratégia é manter outras alternativas viáveis, apesar de estar concentrada no Rio. A experiência de exportações via São Sebastião, por exemplo, foi feita este ano.

Como em outros setores, os portos disputam movimento entre si. ¿Essa disputa é normal no mercado¿, diz o presidente da Docas do Rio, citando que, na prática, o porto do Rio vem sendo favorecido pelos gargalos nos portos de São Paulo.