Título: Credores aprovam plano da Varig
Autor: Alberto Komatsu, Mariana Barbosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/12/2005, Economia & Negócios, p. B12
Na mesma assembléia, foi vetada a transferência de controle da Fundação Ruben Berta a Nelson Tanure
Os credores da Varig aprovaram ontem por unanimidade o plano de recuperação da companhia e vetaram a transferência de controle da Fundação Ruben Berta (FRB) à Docas Investimentos, do empresário Nelson Tanure. A aprovação do plano evitou a falência da Varig, que permanece protegida contra eventuais execuções judiciais até 8 de janeiro. Entre algumas das medidas anunciadas está a promessa de não haver demissões, mas o objetivo é enxugar custos, por meio de redução salarial. "A princípio não haveria demissões. Há outras formas de redução de custos, como a redução salarial, que pode chegar a 10%. E os trabalhadores têm a opção de transformar a diferença em participação acionária", diz o presidente-executivo da Varig, Marcelo Bottini. Fontes que acompanham a elaboração do plano, porém, garantem que a redução pode chegar a 30%, se as despesas mensais da companhia ultrapassarem a meta de US$ 75 milhões.
O plano não prevê nenhum deságio na dívida de R$ 4,5 bilhões (valor que exclui a dívida com a União, que não passa pela recuperação judicial), mas uma moratória de 36 meses. Credores sem garantias, como a BR Distribuidora, Infraero e Banco do Brasil, receberão seus créditos em 10 anos, enquanto os credores com garantias receberão em 7 anos. Nos dois casos, a empresa prevê juros de 4,75%. O fundo de pensão Aerus ficou excluído do acerto. Pelo plano, a empresa retomará o pagamento de R$ 8 milhões ao mês, até 2022, conforme acordo de 2003.
Quanto aos créditos dos trabalhadores, foram divididos em duas categorias. Os aeroviários receberão seus créditos em 12 meses, como prevê a lei de recuperação judicial. Os aeronautas (que ganham mais) também participam da moratória. "Estou decepcionada. O que estão fazendo conosco é uma violência", afirma Graziella Baggio, presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas.
Com a exceção do Aerus e dos aeroviários, todos os credores terão a opção de converter dívidas em quotas de Fundos de Investimentos e Participação (FIP). Ao todo serão criados quatro FIPs, que reunirão todas as ações das empresas aéreas do grupo Varig. O projeto, enfatiza Bottini, foi elaborado a partir das sugestões da consultoria Lufthansa, da equipe técnica da Varig e das modificações propostas por credores governamentais (Infraero, BB e BR Distribuidora) e o Aerus.
A Infraero votou contra a transferência de controle e foi a favor do plano de recuperação. A BR se absteve de votar pela mudança de controlador, mas aprovou o projeto de reestruturação. O BB não compareceu.
Das 76 aeronaves da frota atual, apenas 60 estão voando. No primeiro semestre de 2006, de acordo com o plano, o número de aviões em uso subiria para 63 e, no segundo, iria para 69. Segundo Bottini, as receitas operacionais serão ajustadas conforme esse planejamento.
A meta é recuperar a margem operacional da companhia, atualmente em - 4.6%, para 3,7% no ano que vem e para 8,6% em 2010. "Tudo que estamos propondo cabe dentro do nosso fluxo de caixa", diz Bottini, que prevê uma sobra de caixa de US$ 4 milhões em 2006, US$ 58 milhões em 2007 e US$ 70 milhões em 2008.
"Os cães ladram, a caravana passa e vamos para Nova York", afirma Bottini. Ele refere-se à audiência na Corte de Falências de Nova York, amanhã, quando vencem US$ 44 milhões de dívidas com empresas de arrendamento de aviões. Esse total é fruto de débitos contraídos há 60 dias. O executivo conta que vai apresentar proposta de pagamento de US$ 20 milhões, que devem ser obtidos por meio de uma operação de antecipação de recebíveis com bancos como o Credit Suisse First Boston e o Fisa, de Portugal. Uma das exigências da Corte americana para manter a liminar contra o arresto de aeronaves é o plano de recuperação.
Entre as empresas de arrendamento, que em sua maioria se abstiveram de votar, a sensação é de que a Varig, a partir de agora, começa do zero. "O plano não é maravilhoso, mas também não é horrível. Deve ser administrado com bom senso pois tem prazos de carências elevados", diz um representante das empresas de leasing.
TAP
A estatal portuguesa de aviação TAP informou ontem que não considera válida a proposta feita por Tanure pelas subsidiárias VarigLog e Varig Engenharia e Manutenção. O fundo de investimentos americano Matlin Patterson também contestou judicialmente a proposta feita por meio da Docas Investimentos.
As duas empresas foram adquiridas em novembro pela TAP por US$ 62 milhões. COLABORARAM: MÔNICA CIARELLI E JAIR RATTNER