Título: Pouco de quase nada
Autor: CELSO MING
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/12/2005, Economia & Negócios, p. B2

Ninguém resumiu melhor o que aconteceu na semana passada nas negociações comerciais de Hong Kong no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) do que o representante comercial dos Estados Unidos, Robert Portman: "Não é o suficiente para fazer desse encontro um verdadeiro sucesso, mas é o bastante para salvá-lo do fracasso." Do ponto de vista dos interesses dos países em desenvolvimento, o avanço só foi perceptível na medida em que evitou o fracasso. Na prática, foi fixada uma data para o fim dos subsídios agrícolas à exportação: 2013. Essa data coincide com o fim da atual Política Agrícola Comum (PAC) da União Européia, que define os subsídios à exportação.

Mas, como está lá no documento final, já em 2010 haverá a extinção de "parte substancial" desses subsídios. De qualquer maneira, ficou sacramentada a exigência de que os subsídios agrícolas têm de acabar num horizonte visível.

Como serão cortados e como entender o que será, na prática, essa "parte substancial" ficará para ser decidido até o final do ano que vem. Para quem tem pressa e sede de eqüidade comercial, como os países em desenvolvimento, esses progressos são mais mensuráveis se vistos através de lentes políticas do que através de lentes econômicas ou comerciais.

As novidades mais relevantes não ficaram nas decisões; ficaram na maneira como os países se alinharam na OMC. Desta vez, os países ricos ficaram em lados opostos. Até muito recentemente, Estados Unidos, União Européia, Japão e Canadá decidiam tudo a portas fechadas e obrigavam o resto do mundo a engolir o que dispusessem entre eles.

Em 2003, em Cancún, já havia aparecido o Grupo dos 20 (países em desenvolvimento) liderado por Brasil, Índia e China, que estabeleceu decisivo contraponto ao processo conduzido pelo bloco rico. Agora, em Hong Kong, pela primeira vez os Estados Unidos alinharam-se com o Grupo dos 20 para pressionar a União Européia a eliminar os subsídios agrícolas. Também se destacou a formação do assim chamado Grupo dos 110 países pobres, que pela primeira vez atuaram orquestradamente.

Essa nova geometria decisória da OMC ainda não está inteiramente desenvolvida porque, pela participação que já detém no comércio mundial, mais cedo ou mais tarde, a China abandonará sua conveniente tática encabulada (low profile) para começar a falar grosso e impor, também aí, seus interesses. É inevitável.

Não dá para negar que foi brilhante a atuação do chanceler Celso Amorim. Conseguiu ser ouvido e falar de igual para igual com representantes dos países ricos. Isso mostra como o Itamaraty pode obter resultados melhores quando concentra sua atuação nas negociações comerciais. Quando, ao contrário, insiste em enveredar por assuntos geoestratégicos com objetivo de forçar a liderança do Brasil onde ela não existe e quando teima em costurar impossíveis alianças do tipo Sul-Sul, que nem em geografia se justificam , só tem colecionado insucessos.

No governo Lula, o Itamaraty não conseguiu emplacar a candidatura do Brasil a um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no que encontrou oposição em quase toda a América Latina; obteve menos de 10 votos em 148 para a candidatura do embaixador Seixas Correa ao cargo de diretor-geral da OMC; fracassou, também, na tarefa de conduzir o economista João Sayad à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento; e não vem obtendo nenhum apoio significativo na sua tentativa de criar a tal Comunidade Sul-Americana de Nações.

O Brasil detém uma participação inferior a 1% no fluxo mundial do comércio, mas, em assuntos comerciais, detém uma liderança mundial agora incontestável. É esse o caminho a seguir.