Título: Reservas são as maiores em 7 anos
Autor: Adriana Fernandes e Gustavo Freire
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/12/2005, Economia & Negócios, p. B3
A alta recente do dólar em relação ao real não foi suficiente para fazer o Banco Central (BC) recuar de sua decisão de continuar atuando no mercado de câmbio. Neste ano, o BC já comprou US$ 21,5 bilhões no mercado. Com isso, o governo deverá terminar o ano com reservas internacionais de US$ 53,8 bilhões, mesmo com o pagamento de US$ 15,5 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A estimativa é do diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua. Trata-se do maior valor de reservas desde o início da política de flutuação da taxa de câmbio, em janeiro de 1999, e o dobro do volume líquido de reservas do final de 2004. Para 2006, Bevilaqua projeta reservas na casa dos US$ 60 bilhões, sem considerar eventuais compras de dólares do BC.
O aumento das reservas também provocou uma melhora em vários indicadores de solvência externa do País. A relação entre as reservas internacionais e a dívida externa de curto prazo, por exemplo, atingirá o recorde de 136% neste ano. "Não temos meta em relação a este item", disse Bevilaqua.
Ele destacou ainda a relação entre dívida externa e Produto Interno Bruto (PIB) que, no fim de dezembro de 2002, estava em 46% e deve fechar 2005 em 21%, o menor desde 1975, quando foi de 25%. Em dezembro de 1999, a dívida externa era 4,1 vezes superior ao valor das exportações. Essa relação deverá cair para 1,4 vez este ano. Segundo Bevilaqua, será a menor da série iniciada em 1970.
"Enquanto a situação externa for favorável, vamos procurar aproveitar as oportunidades para melhorar nossas condições de sustentatibilidade externa", disse Bevilaqua. Ao ser indagado sobre quando poderá haver uma reversão no quadro externo, o diretor lembrou que vem trabalhando com esta hipótese desde o fim de 2003.
Apesar de concordar com Bevilaqua, a economista Zeina Latif, do Banco ABN Amro, acha que o BC deveria ser menos previsível em suas intervenções no mercado. "As compras diárias de dólares passam a impressão de que há um piso para a taxa de câmbio."
Bevilaqua, no entanto, voltou a afirmar que o governo não tem nenhuma meta para a taxa de câmbio. "O regime de metas de inflação é incompatível com a fixação de um objetivo para a taxa de câmbio. Nós temos uma livre flutuação do câmbio."
O problema, na visão da economista do ABN, é que as atuações no mercado cambial encontrarão um limite na própria política de metas de inflação: "Vai chegar o momento em que a alta da taxa de câmbio vai começar a afetar a inflação. Existe um conflito aí".
DADOS POSITIVOS
O Relatório de Inflação divulgado ontem pelo BC traz vários números positivos nas contas externas. Com o pagamento ao FMI, a dívida externa deverá cair para US$ 165 bilhões no fim deste ano e atingir o menor nível desde 1995, como já havia sido informado na semana passada pelo Estado. Em relação ao estoque existente em 2003, a redução é de US$ 50 bilhões.
O cenário positivo na área externa levou ainda o BC a aumentar a estimativa de superávit em conta corrente do balanço de pagamentos em 2006 de US$ 3,7 bilhões para US$ 6,3 bilhões. Para este ano, a previsão subiu de US$ 13,6 bilhões para US$ 15 bilhões.