Título: Iraquianos vão em peso às urnas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/12/2005, Internacional, p. A12
O comparecimento, estimado em mais de 70%, foi alto também entre sunitas, que em janeiro boicotaram eleições
Os iraquianos votaram ontem em históricas eleições parlamentares, em meio a um grande comparecimento nas áreas árabes sunitas que haviam boicotado as eleições de janeiro, quando foi escolhida uma Assembléia provisória. Os EUA esperam que os sunitas obtenham uma grande representação no Parlamento - com um mandato de 4 anos -, reduzindo a insurgência no país e facilitando o início da saída das forças americanas e da coalizão no próximo ano. Mais de 15 milhões de eleitores estavam habilitados a escolher os 275 membros do novo Parlamento entre 7.648 candidatos de 231 partidos, representando xiitas, sunitas, curdos, turcomanos e interesses sectários. No fim do dia, autoridades estimaram que até 11 milhões - mais de 70% dos eleitores - votaram. Uma pesquisa de boca-de-urna feita por jornalistas da Reuters em várias partes do Iraque indicou um forte apoio nas áreas xiitas à Aliança Iraquiana Unida (AIU), membro xiita da coalizão governista junto aos curdos. A pesquisa indicou que 48% dos eleitores na principal área xiita de Bagdá votaram pela AIU e 38% pela lista do ex-primeiro-ministro Iyad Allawi, que defende a criação de um governo secular.
Várias explosões ocorreram em Bagdá ontem e uma bomba matou o segurança de um hospital perto de um centro de votação em Mossul, mas a violência foi menor do que em janeiro - quando 40 pessoas morreram em ataques - e não desencorajou os eleitores.
Apesar do alto comparecimento, a maioria dos sunitas não acredita que a apuração será justa, indicou uma pesquisa divulgada ontem. Mas uma grande maioria dos iraquianos acha que não haverá nenhuma tentativa de fraude, revelou a pesquisa do Instituto Internacional Republicano, um grupo pró-democracia filiado ao Partido Republicano dos EUA. A apuração começou ontem mesmo e os resultados oficiais devem sair em duas semanas.
Os sunitas foram em peso às urnas - mesmo em redutos da insurgência, como Ramadi e Haqlaniyah - num esforço para reduzir o poder dos partidos religiosos xiitas. Os religiosos sunitas conclamaram seus seguidores a votar e vários grupos rebeldes prometeram não atacar centros de votação.
A aliança de grupos religiosos xiitas, que domina o atual governo, deve obter o maior número de cadeiras - mas não o suficiente para formar um governo sem uma coalizão com grupos rivais. O bloco que obtiver a maioria das cadeiras indicará o novo primeiro-ministro, que terá de negociar com outros partidos e formar o governo.
"Vim votar para provar que os sunitas não são minoria neste país", disse o advogado Yahya Abdul-Jalil em Ramadi, capital da província ocidental de Anbar. "Perdemos muito nas últimas eleições, mas agora recuperaremos nosso papel-chave na liderança do país." A minoria sunita - cerca de 20% da população iraquiana - controlava o governo até a deposição de Saddam Hussein, em abril de 2003.
Para muitos sunitas, as eleições representam, mais do que a chance de voltar ao poder, um importante passo para a retirada das forças americanas.