Título: Copom esquece o seu papel
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/12/2005, Economia & Negócios, p. B2

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar apenas 0,5 ponto porcentual (pp) da taxa Selic decepcionou o mercado que, nos dias que antecederam a reunião das autoridades monetárias, alimentava a esperança de que o BC mostraria sensibilidade diante do pífio resultado do crescimento do PIB, fazendo um corte de 0,75 pp. No entanto, convém notar que pela primeira vez em 15 meses não houve unanimidade entre os membros do Copom, o que talvez indique que a tendência ultra-ortodoxa desse organismo esteja se enfraquecendo. Outro sinal disso é que esta reunião foi a mais longa em 13 meses e, apesar da vitória ainda da ortodoxia, a taxa Selic , de 18%, é a menor registrada em 12 meses. Teremos de esperar a divulgação da ata na próxima semana para melhor captar as razões que levaram a essa decisão frustrante. A ata seguramente não dará uma explicação cabal e completa, mas é possível pensar que, num momento em que o governo está sendo fortemente criticado dentro do seu próprio partido por dar excessiva independência ao BC, o Copom tenha desejado, justamente, reafirmar essa independência. Outros motivos podem ter sido invocados, na reunião, para justificar a manutenção da linha ortodoxa. Para um organismo que durante todo o ano explicou a elevação da Selic pelo fato de que a inflação se mantinha acima da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional, pareceria estranho optar por uma redução maior daquela taxa, justamente no mês em que ficou oficializado que a inflação ultrapassaria a meta. Outros fatores certamente foram levados em conta: o aumento das taxas básicas nos EUA, na União Européia e na Suíça e o inconveniente de reduzir a taxa de juro no mês em que a atividade de consumo se intensifica ao máximo. É de lamentar, todavia, que o BC, esquecendo seu papel na formação de expectativas dos agentes econômicos, tenha se recusado a contribuir para retirá-las do baixo nível em que ficaram depois da divulgação do resultado do PIB no terceiro trimestre. Continuamos sem entender também o paradoxo de uma política que visava a conter o consumo por meio do aumento da taxa Selic e, no entanto, promoveu uma expansão da demanda interna com o sistema do crédito em consignação. Por outro lado, se o objetivo das autoridades monetárias era reduzir a relação dívida interna/PIB, então por que se manteve a Selic elevada durante tanto tempo, uma vez que é a principal causa do aumento da dívida mobiliária federal? Esta, em novembro, cresceu 2,4% sobre o mês anterior. Isso tudo numa fase em que não havia preocupações com a inflação, mas sim com o baixo crescimento econômico .