Título: `A Europa não tem vontade de negociar¿
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/12/2005, Economia & Negócios, p. B6

Considerado líder do G-20, chanceler brasileiro diz que os europeus ¿fizeram perder tempo¿

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, está obtendo grande destaque na imprensa francesa após o encontro ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Hong Kong, que terminou no domingo. Depois de longas e tensas negociações, representantes dos países membros da organização concordaram em eliminar os subsídios agrícolas até 2013. A proposta inicial do Brasil, e de outros países em desenvolvimento, era 2010. A decisão foi considerada uma vitória, ainda que pequena, pois recolocou a Rodada Doha nos trilhos.

Um dos jornais mais importantes da França, Le Figaro, publicou segunda-feira uma entrevista com o chanceler brasileiro, na qual ele é citado como o líder do grupo de países emergentes, o G-20. Nela, Amorim acusa os europeus de não desejarem negociar o fim dos subsídios às exportações e rechaça as acusações de que o Brasil é um país protecionistas. Amorim aproveitou para fazer propaganda da carne brasileira, lembrando que nunca houve um caso de vaca louca no País.

A seguir a íntergra da entrevista com Amorim:

Os países entraram em acordo para fixar um prazo para o fim dos subsídios agrícolas à exportação. Que balanço o senhor faz do encontro? O resultado foi fraco, mas é melhor do que nada. Preferíamos ter uma oferta permitindo derrubar as barreiras aduaneiras. Mesmo que essa operação não seja nosso objetivo principal, ela teria tido ao menos o mérito de criar um ciclo virtuoso de negociações, nos permitindo, por tabela, conseguir a nossa principal demanda: a redução dos subsídios internos à produção nos Estados Unidos e na União Européia.

A União Européia teme que essas reduções que os senhores reclamam resultem em uma invasão dos bois brasileiros em seus mercados.

Esse medo é ridículo. Nosso interesse não é vender algumas toneladas de carne a mais. E para a agricultura européia, o desafio não é concorrer com o Brasil nesses produtos alimentares de base. De nossa parte, não vamos entrar em competição com o queijo camembert ou o vinho bordeaux.

Além disso, quero lembrar que nunca tivemos um caso de vaca louca no Brasil. No nosso País, os animais têm à disposição pastos enormes e eles são vegetarianos. Tem-se a impressão que a Europa é uma ¿cabeça de turco¿... (expressão indicando que os europeus se fazem de vítima)

A oferta européia em matéria de reduzir as taxas alfandegárias é pobre. Isso foi reconhecido por todo o mundo, incluindo os Estados Unidos e a Índia. Na antevéspera do último dia de reunião, a Comissão Européia nos fez perder tempo: negociamos durante quatro horas as contrapropostas sobre o fim dos subsídios agrícolas à exportação.

No final, a Comissão Européia nos disse que não podia se comprometer a acabar com os subsídios em 2010. Não gosto desses métodos. De fato, acho que a Europa não tinha interesse em negociar.

É a mesma queixa dirigida ao Brasil, que ¿ segundo a União Européia ¿ se recusa a abrir seus mercados aos produtos industrializados e aos serviços. Não é verdade. A senhora Christine Lagarde, ministra francesa do Comércio Exterior, talvez tenha sido mal-informada por Peter Mandelson (comissário do Comércio da União Européia). Durante uma reunião que tivemos há algumas semanas em Londres, declarei que eu estava preparado a reduzir em 50% nossas tarifas industriais, com a condição de que a Europa nos fizesse uma proposta razoável sobre o acesso aos mercados agrícolas.

Admito que se tratava de uma oferta virtual, mas ¿ sejamos sérios ¿ não vamos oferecer concessões em troco de nada. Além disso, queixam-se de que o Brasil é protecionista. Devo elaborar uma lista das empresas francesas e européias instaladas em nosso país, em saneamento, bancos, grandes varejistas ou limpeza urbana? O Brasil, que pode ser considerado de uma certa forma como um país desenvolvido, se fez porta-voz dos países em desenvolvimento. O senhor está preparado para defender os interesses deles? Esta é bem uma visão de país rico. Você apresentou essa mesma questão para a Tanzânia? Quando falo a meus amigos africanos, eles consideram o Brasil como porta-voz de seus interesses. Quanto ao G-20, nunca pretendemos que ele formasse um grupo homogêneo.

É justamente sua capacidade de conciliar diferentes interesses que constitue sua força e sua beleza. Desde a sua criação, afirma-se que o G-20 terminaria no final de dois meses. Já faz dois anos e meio que ele existe.