Título: Euforia mundial derruba risco país para o menor nível da história
Autor: Renée Pereira
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/01/2006, Economia & Negócios, p. B1

Um forte otimismo tomou conta do mercado financeiro ontem, no primeiro dia de negociações globais do ano, pois segunda-feira foi feriado nos Estados Unidos. A Bolsa subiu, o dólar caiu e o risco país despencou, rompendo a barreira psicológica dos 300 pontos. Pela primeira vez na história, o índice fechou em 299 pontos, com queda de 3,86%, até 19h33. Na mínima do dia, porém, atingiu 298 pontos. Esse indicador mede a confiança dos investidores de que o Brasil vai pagar suas dívidas. Risco menor indica mais confiança. Mas o bom humor dos investidores não se restringiu ao Brasil. O mercado mundial teve um dia de euforia, seja pelo primeiro dia de operações globais ou pela divulgação da ata do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Em Wall Street, o Nasdaq subiu 1,74% e o Dow Jones, 1,21%.

Segundo o economista-chefe da GAP Asset Management, Alexandre Maia, a ata indicou que o ciclo de aperto monetário americano pode estar perto do fim. Junta-se a isso a divulgação de dados econômicos mundiais mostrando que o crescimento vai continuar em níveis altos em 2006. O que significa alta liquidez nos mercados. "Tudo isso, aliado ao fenômeno do começo de ano, em que os investidores começam a decidir onde vão pôr seus recursos, trouxe otimismo para o mercado."

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) avançou 3,08%, para 34.540 pontos, número também recorde. Já o dólar comercial não teve força para manter a alta, mesmo com a atuação do Banco Central na realização de leilões de swap reverso, em que oferece contratos que pagam taxa de juros em troca de operações feitas em dólar. O dólar fechou em queda de 0,38%, cotado em R$ 2,331.

Na avaliação da economista da Tendências Consultoria Integrada Alessandra Ribeiro, o contexto internacional para 2006 é muito bom para os países emergentes, seja em termos de fluxo comercial ou financeiro. Para ela, os juros americanos, hoje em 4,25%, no máximo, devem chegar a 4,75% este ano.

"Os juros de longo prazo também estão baixos, o que tende a reforçar a busca dos investidores por melhores retornos nos países emergentes." Nesse cenário, diz, o Brasil deve ser o foco dos estrangeiros, pois vem melhorando os indicadores de solvência externa, que mostram a capacidade de o País pagar seus compromissos.

Segundo Alessandra, além do pagamento da dívida com o Fundo Monetário Internacional no fim do ano passado, o Tesouro tem conseguido emitir títulos no mercado internacional por prazos mais longos e taxas menores.

Isso tudo, explicam os economistas, dá mais segurança ao investidor, que quer aplicar em papéis brasileiros. Mas o maior atrativo é a alta taxa de juros do País, de 18% ao ano.

Apesar de o Brasil ter apresentado crescimento bem menor que os demais países emergentes, a melhora dos fundamentos econômicos tem influenciado mais a decisão dos investidores em apostar no País. O resultado da balança comercial surpreendeu e deve continuar alto. O saldo de conta corrente também teve desempenho satisfatório. A inflação caiu e a perspectiva é que a taxa de juros recue ainda mais.

Com isso, em 2006 a economia tende a ter um crescimento melhor que em 2005, cujas previsões do PIB apontam para 2,4%. Apesar da eleição, o mercado não espera a vitória de um candidato-surpresa. "A política está sob controle: deve ganhar alguém do PT ou do PSDB e nenhum dos dois assusta os investidores", diz um operador.