Título: 'Esperança não acabou, mas agora é pouca'
Autor: José Maria Tomazela
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/12/2005, Nacional, p. A15

Desiludido, sem-terra acampado em Avaré diz que 'é tarde para desistir'

Quando se juntou a 420 famílias do Movimento dos Sem-Terra (MST) para formar, no início de 2003, o Acampamento Unidos do Che, o trabalhador rural Antonio Carlos Gomes, de 37 anos, esperava uma mudança radical. Ele, que a vida toda trabalhara como bóia-fria na região de Avaré, sudoeste paulista, queria ter um pedaço de terra seu e não ficar mais à mercê do patrão. "Todos nós achávamos que aquela era a hora, pois o Lula tinha acabado de assumir a Presidência." Quase três anos depois, ele é um sem-terra desiludido. "O tempo passou, e nada. A esperança não acabou, mas agora é pouca." Confiando no assentamento rápido, ele se desfez da casa que alugava na cidade e levou toda a família, a mulher Jaqueline Campos, de 17 anos, os filhos Wesley, de 6, e Braian, de 5, para debaixo da lona. A caçulinha Luana, de 1 ano, já nasceu como acampada. Ao aderir ao movimento, Gomes deixou para trás mais de cinco anos de trabalho numa empresa rural. "Perdi o tempo da firma, mas agora é tarde para desistir", conforma-se.

A grande maioria já desistiu. No acampamento, instalado na zona rural de Buri, também no sudoeste, restam no máximo 100 famílias. O número inclui as remanescentes do Acampamento Terra Pra Quem Nela Trabalha, de Avaré, que se juntou ao Che. Este outro, também formado em 2003, chegou a ter 275 famílias. Ou seja, os 100 barracos do Che é tudo o que sobrou, na região, das 695 famílias acampadas no início do governo Lula.

"O que pega é a demora. O estresse de ficar debaixo da lona leva as pessoas a desistir", diz o coordenador Ladislau Lins de Souza, de 32 anos. Ele reconhece que a expectativa, quando Lula assumiu, era muito grande. Foi o que o motivou a deixar o trabalho de bóia-fria e acampar numa área de 3 alqueires e meio, em Itaberá, para formar o Che. "Começamos ocupando a Fazenda União, de terras improdutivas, mas fomos despejados."

CESTA BÁSICA

Em seguida, o grupo invadiu o Horto Florestal, já em Buri, depois a Fazenda Cambará, em Itaberá. Há 20 dias, fez sua última ação, invadindo a Fazenda Santa Fé, de novo em Buri. Despejados, acampou na beira da linha de trens da América Latina Logística (ALL).

"Aqui tem água e todo mês vem a cesta básica, mas não vamos acomodar", diz Souza, prevendo novas invasões. "Há muita terra devoluta nesta região."

Os assentamentos não saem, diz ele, não só por culpa de Lula. "A elite não deixa e, se ele passar os pés pelas mãos, é golpe militar na certa." Reconhece, porém, que o presidente petista poderia ter feito mais do que vez. "Ele está em débito, sim, pelo menos com a reforma agrária. Não fez nem 40% do que prometeu."

Mesmo assim, se Lula for candidato de novo, a maioria ali vota nele, diz Souza. "Ruim com o Lula, pior sem ele." O acampado Gomes concorda. Os outros candidatos, acredita, trabalham contra a reforma agrária. "Os tucanos defendem os ricos e latifundiários. É melhor o Lula que, se não ajuda, também não atrapalha."

A empresa ferroviária já tentou tirar os sem-terra da área de domínio, alegando risco de acidentes, mas não conseguiu. "Essa faixa aqui é federal", diz Souza. Os acampados usam água de um poço e tomam banho em um rio. Quando alguma das 54 crianças adoece, é levada para o Centro de Saúde Municipal de Buri.

A vida dura sob a lona fez com que três filhos do aposentado Adedil Rodrigues Jardim, de 70 anos, desistissem do acampamento. "Eles só voltam quando sair a terra." Jardim não acredita que ainda seja assentado pelo governo Lula. "Está muito bagunçado."