Título: 'O governo não deveria permitir tantas CPIs'
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/12/2005, Nacional, p. A7

Gushiken admite que, ao contrário do cassado Dirceu, não percebeu que as investigações virariam guerra

O senhor participou de um episódio lamentável do governo Lula, que foi o pedido de expulsão de Larry Rohter, correspondente do New York Times, autor de uma reportagem sobre os hábitos etílicos do presidente Lula. Qual o balanço disso? Esse caso mostra que muitas vezes o governo comete equívocos porque está sem sintonia com a sociedade. Fizemos o debate errado. O assunto não tinha tanta relevância. Dentro do governo, discutimos a expulsão do jornalista com base numa lei da ditadura. Nós ficamos discutindo se era correto utilizar essa lei. Quando a medida foi anunciada, percebemos que a discussão que o País estava fazendo era outra, era sobre a liberdade de imprensa. O presidente Lula, que fora vítima, acabou ficando na posição de algoz.

O senhor acredita que a crise política do mensalão poderia ter derrubado o presidente Lula?

Se o presidente não fosse um homem forte, como Lula, e se ele não tivesse um partido forte, como o PT, a crise seria infinitamente maior. Com um presidente fraco e um partido fraco, este governo teria acabado. O Brasil necessita de reformas políticas para evitar tudo isso. Vivemos uma situação de governabilidade inconclusa, em que as instituições facilitam as crises e dificultam o trabalho de governar.

Onde o governo errou?

O governo não deveria ter permitido essa profusão de CPIs. Nós chegamos a ter a ilusão de que a oposição queria investigar as denúncias. Depois ficou claro que a oposição, em especial o PFL, queria destruir o governo e o PT. Era uma operação de guerra. Foi por compreender que estava numa guerra, e não num conflito negociado, que o José Dirceu conseguiu sair-se bem, apesar de tudo.

Mas há um erro anterior, que é Marcos Valério, Delúbio, essa complacência toda... Como isso foi possível?

Os responsáveis pelas finanças do partido sucumbiram à lógica tradicional de fazer campanha.

Mas isso revela uma fraqueza maior, não só dos responsáveis financeiros...

Esse processo acabou arruinando o patrimônio ético do partido. Todas as pessoas que se beneficiaram dos recursos de Marcos Valério e de qualquer esquema ilícito vão prestar contas. Acho que o PT supera esta fase. O partido é muito mais forte do que essas pessoas, é uma necessidade histórica.

Como o senhor enxerga a sucessão presidencial?

Até o ano que vem teremos tempo para que bons resultados apareçam. A situação da economia, que teve um trimestre ruim, deve se reverter. O povo não vai discutir ética nem juros, mas questões clássicas como saúde, educação, pobreza. E esta é uma bandeira do presidente Lula.

No início do governo o senhor defendia aliança com o PSDB. O senhor ainda pensa assim?

A eleição municipal de 2004 impediu que esse debate fosse feito. Não dava para percorrer o País brigando com o PSDB para depois falar em aliança. Também não se pode pensar nisso em 2006, numa eleição presidencial. Mas eu acho que depois da campanha, essa aliança com o PSDB será o grande desafio do segundo mandato do presidente Lula.

Como isso poderia funcionar?

Estes são os dois partidos que têm base social organizada. Torço para que o presidente Lula possa fazer essa aliança estratégica no segundo mandato. Essa divisão é uma tragédia da política brasileira. Sem ela, qualquer governo será obrigado a fazer o que sempre se fez: alianças por métodos condenáveis. Seria um acordo com bases políticas.

Como Luiz Gushiken encara seu futuro?

Sou um modesto servidor da vida pública. Abdiquei de disputar mandatos parlamentares e não freqüento mais instâncias partidárias. Fui investido da mais alta honra que poderia aspirar, que é participar do governo Lula.