Título: Enxurrada de dólares
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Fonte: O Estado de São Paulo, 05/01/2006, Notas e Informações, p. A3
O governo e as empresas brasileiras encontraram ambiente propício para captar US$ 29,83 bilhões no exterior, em 2005, em geral sob a forma de bônus e empréstimos sindicalizados. Foi o maior volume de ingressos desde 1997, explicável tanto pela oferta substancial de recursos no mercado internacional como porque o País pagou juros altíssimos em reais, atraindo os aplicadores externos, ao mesmo tempo que fortalecia seu balanço de pagamentos, reduzindo o risco dos investidores. É provável que as condições internacionais favoráveis persistam, ainda que, eventualmente, em grau menor do que em 2005.
O maior tomador de recursos externos foi o governo federal. A União levantou US$ 13,29 bilhões em 2005, valor recorde na última década, duas vezes e meia superior ao de 2004. A política oficial consistiu tanto em rolar a dívida que venceu no ano passado como em se antecipar às necessidades de recursos deste ano. Procurou evitar, assim, o risco de uma elevação de custos de captação em decorrência do acirramento da campanha eleitoral. Além disso, os recursos ajudaram a quitar previamente os empréstimos com o FMI.
Em 2005, cristalizou-se uma mudança estrutural nas condições de financiamento externo. O Brasil trocou dívida mais cara por dívida mais barata, por exemplo, ao substituir os antigos C-Bonds, que venceriam neste ano, por A-Bonds, com vencimento em 2018. Também empresas privadas melhoraram a qualidade de suas captações externas, como foi o caso da Braskem, Coelba, Telemar, Itaú e Petrobrás.
Operações inéditas foram realizadas. O Tesouro lançou títulos no montante equivalente a US$ 1,5 bilhão no mercado externo, em reais, reduzindo o risco cambial da dívida pública. Bancos e empresas - como Bradesco, Santander, Unibanco, Companhia Siderúrgica Nacional, Gerdau, Braskem e Construtora Norberto Odebrecht - fizeram emissões de bônus perpétuos, ou seja, sem prazo de vencimento. Até empresas de menor porte conseguiram efetuar captações externas e bancos pequenos e médios incluíram-se entre os principais emissores de eurobônus destinados ao mercado internacional. Outras companhias e instituições financeiras contrataram no exterior US$ 2,7 bilhões em empréstimos stand-by, ou seja, recursos que só serão mobilizados se a empresa precisar.
É idêntico o objetivo do governo e do setor privado: reforçar a tal ponto o balanço de pagamentos que o risco Brasil possa continuar caindo. Entre dezembro de 2004 e dezembro de 2005, o risco Brasil já caiu de 382 pontos básicos acima dos títulos norte-americanos para 311 pontos básicos. Aos poucos, portanto, os spreads pagos pelo Brasil ficam menos distantes daqueles pagos por países considerados investment grade, como a Rússia e o México, cujos riscos, respectivamente, eram de 115 e 122 pontos básicos no final do ano passado.
Ao adiantar a captação necessária para 2006, o País deu preferência à elevação do nível de reservas. Estas passaram de US$ 27,5 bilhões, em 2004, para cerca de US$ 54 bilhões, em 2005, depois da quitação da dívida com o Fundo. É possível que as autoridades também acreditem na tendência de queda do valor internacional do dólar, no longo prazo, não obstante, em 2005, tenha havido recuperação frente ao euro e às moedas asiáticas. Um dólar mais fraco tornará o endividamento externo mais fácil de pagar.
A boa saúde do balanço de pagamentos foi decisiva para a captação externa. Além de ter registrado um superávit de US$ 13,7 bilhões na conta corrente, até novembro de 2005, o Brasil está diminuindo sua dívida externa, de US$ 214,9 bilhões, em 2003, para US$ 183,1 bilhões, em setembro último.
A combinação de um forte superávit comercial, previsto novamente para 2006, com o aumento das reservas cambiais e a continuidade da tendência de diminuição da dívida externa tornam o Brasil menos dependente das flutuações da economia mundial. Isto será mais evidente se se confirmarem os sinais de que está prestes a se encerrar o ciclo de alta do juro básico norte-americano, evitando que os EUA desacelerem seu ritmo de atividades.