Título: O povo merece julgar Lula
Autor: Mauro Chaves
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/12/2005, Espaço Aberto, p. A2

Há certos momentos na História dos povos em que, acima da Justiça formal e das regras definidas em lei, acima dos interesses políticos de qualquer natureza e dos problemas administrativos de qualquer espécie, acima das ambições de poder de quantos habitem o espaço público, se impõe uma cobrança maior, um grande juízo social, uma resposta pública capaz de revidar a desilusão sofrida, a alma popular enganada, o sentimento de humilhação de uma nação.

Há certos momentos em que, sem a pequenez do espírito de retaliação, é necessário dar o troco e punir com firmeza a falsa intenção, a traiçoeira escamoteação. E essa punição não há de ser colegiada - por mais razões que existam para uma condenação parlamentar e/ou judicial -, mas coletiva, popular, eleitoral, para que a população sinta a possibilidade de resgatar o poder do voto, antes de desprezar por completo o sistema que se utiliza desse instrumento exclusivo das democracias, para a escolha do destino político.

Mais importante do que as tecnicalidades jurídicas necessárias às apurações de culpa, sobrelevando-se à urgência de se imporem sanções aos que se apoderaram da coisa pública sob os mais desprezíveis pretextos - pessoais, partidários ou grupais -, está o alento do desfazimento, a oportunidade de se refazer a esperança dejetando, expelindo com força, vontade e alívio de descarrego o fruto carcomido da ilusão, o agente aleivoso da embromação. Eis por que não se trata de Lula merecer a chance de se candidatar à reeleição - o que, de resto, faz parte dos direitos dos governantes, segundo a Constituição vigente -, mas sim de o povo merecer a oportunidade de julgá-lo, com a maior convicção - e agora sem a influência do edulcorado marketing eleitoral, que jamais conseguirá de novo fazer a confusão entre o carisma pessoal, a competência funcional e a decência moral.

Por mais que os fatos apurados possam conduzir a claros indícios de crimes de responsabilidade; por ignominiosa que seja a lesão a fundos de pensão de trabalhadores - e jamais se vira governo algum, de que matiz ideológico fosse, surrupiar tão cruelmente a sustentação dos cidadãos na última etapa de sua vida, mesmo que os rombos previdenciários decorrentes dessa megafalcatrua sejam cobertos à custa dos escorchados contribuintes -; por mais degradante que se possa considerar a compra de consciências de representantes do povo e o correlato transporte de dinheiro sujo em malas e cuecas; por mais inacreditável que pareça o acúmulo, em período tão curto de exercício de governo, de um volume tão extraordinário de ilícitos administrativos, penais, civis, tributários, previdenciários, trabalhistas, ambientais, etc. - ilustrado por provas indiciárias cabais de tráfico de influência, extorsão, corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica, prevaricação, apropriação indébita, sonegação fiscal, formação de quadrilha, estelionato e até assassinato (Santo André, Campinas...) -; enfim, por mais que se possa dizer (parafraseando Churchill) que na História dos governos humanos nunca tantos roubaram tanto de tanta gente em tão pouco tempo, é preciso muito mais do que perda de mandato, cassação de direitos políticos, cobrança judicial, condenação ou prisão para que se faça justiça à multidão incalculável de ludibriados do País, especialmente os jovens.

Por tudo isso, é descabida a crítica que se tem feito à oposição, no sentido de que ela está sendo politicamente covarde, ao não tomar a iniciativa de impeachment presidencial - quando há carradas de possibilidades jurídicas para o enquadramento do chefe de Estado e de governo em crime de responsabilidade -, ou está sendo oportunista, deixando o presidente continuar "sangrando" até as eleições, para então abatê-lo, mais facilmente. A esta altura do desastre ético e administrativo, da falsidade de uma alardeada recuperação econômica - que nos deixa lá atrás da média do mundo, no melhor momento histórico que o mundo já teve de crescer - , da falta de valorização do esforço do aprendizado, do desprezo pelo conhecimento e pela experiência, da quebra da majestade - se não da ridicularização explícita - do mais alto Poder da República, não serão algumas cassações de mandatos, suspensões de direitos políticos e mesmo umas merecidas prisõezinhas que irão libertar a alma brasileira da maior de todas as suas históricas frustrações.

Ótimo seria, é claro, que pelo menos algumas punições simbólicas pudessem acalentar os sentimentos populares, neles reintrojetando um pouco da imensa esperança perdida, com base na recuperação de um mínimo de crença na Justiça. Quem sabe umas 150 cassações, mais umas 200 e poucas prisões de corruptos - garantindo-lhes, por certo, o mais amplo direito de defesa - serviriam a esse imediato objetivo. Mas o impeachment presidencial ou qualquer outra forma de afastamento do presidente da República (a esta altura, Deus nos livre de uma renúncia presidencial) só serviria para acalentar uma estratégia de vitimização, com a (velha) avalanche de anátemas lançados contra "as elites" e anacronismos ideológicos do gênero, destinados a, mais uma vez, enganar o povão. Por isso, é importante termos paciência para agüentar mais uns poucos meses, de vácuo grotesco de poder, até a sociedade brasileira mostrar, pelo voto democrático, o que sabe que vai fazer.

Na verdade, preservar o resto do mandato de Lula significa dar ao povo, no ano que vem, o direito de expressar o que não quer, nunca mais.