Título: Brasil quer marcar data para abrir mercado de carros com a Argentina
Autor: Cleide Silva
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/01/2006, Economia & Negócios, p. B1

O Brasil não deve abrir mão do estabelecimento de um novo prazo para a abertura do comércio de carros e peças com a Argentina. A fixação da data é fundamental para as negociações de acordos comerciais do Mercosul com a União Européia e a África do Sul, que devem ocorrer a partir de fevereiro. Representantes dos governos do Brasil e da Argentina retomam esta semana as discussões de um novo acordo automotivo. Inicialmente estava prevista uma reunião hoje, mas o encontro não foi agendado. ¿Se não conseguirmos estabelecer um prazo para o livre comércio entre nossos parceiros, como faremos acordos com outros blocos econômicos?¿, questiona a vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Elizabeth de Carvalhaes, representante da entidade nas negociações internacionais. No setor privado, os dois lados concordam com a necessidade de uma nova data para a abertura de fronteiras, mas há resistências no governo argentino.

Segundo Elizabeth, a não fixação de um prazo para o fim do regime de controle pode afastar investimentos das montadoras nos dois países. ¿O livre comércio é mandatário para o Mercosul.¿ O adiamento do prazo foi uma ¿enorme concessão intrabloco e pode prejudicar as negociações extrabloco.¿

Em fevereiro, representantes da indústria automobilística vão se reunir em Pretória, na África do Sul, para discutir um acordo para exportação de carros prontos, desmontados (CKDs) e autopeças. A região é estratégica para as empresas brasileiras por ser uma porta para a Ásia.

No mesmo mês, estão agendadas negociações com a UE. As bases do acordo prevêem redução progressiva das tarifas de importação de veículos da região, hoje em 35%, até chegar ao livre comércio. ¿O Brasil vai abrir seu mercado a um grande produtor e se inserir no mercado internacional¿, diz Elizabeth. A Europa produz cerca de 20 milhões de veículos anuais. O Brasil, este ano, deve chegar a 2,5 milhões de unidades.

O livre comércio entre Brasil e Argentina estava previsto para este mês, conforme acordo de 2001. Os argentinos pediram o adiamento do prazo, sem estabelecer nova data. O Brasil defende no máximo mais dois anos de comércio controlado. Por falta de entendimento, o acordo automotivo que venceu em 31 de dezembro foi prorrogado por dois meses para se buscar um consenso.

Nesse período, as partes devem estabelecer novas regras para o controle da balança comercial até uma possível abertura do mercado. Uma delas, chamada de flex, prevê atualmente a exportação de US$ 2,6 para cada US$ 1 importado, livre de impostos. Seguindo essa regra, o Brasil exportou para a Argentina, até outubro, cerca de US$ 2,8 bilhões em veículos e autopeças e importou US$ 1,3 bilhão.

A Argentina defende medidas que permitam a ampliação das vendas para o Brasil e vai propor alterações na paridade do flex, mas ainda não detalhou números. Os brasileiros já declararam disposição de mudar essa regra.