Título: Radical demais, até para iranianos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 01/01/2006, Internacional, p. A11

A cada semana, Ahmadinejad provoca um pouco mais Israel e o Ocidente, que ameaçam com represálias

O "paraíso de Sahra" fica a sudeste de Teerã, na rodovia principal para Qhom. Altos muros cercam o vasto local, quase como para protegê-lo da pobreza circundante. Esse "paraíso" se destina a continuar bem distanciado de qualquer indício de sofrimento humano. É um mundo em si mesmo. Um mundo de morte. O Behesht-a Sahra é provavelmente o maior cemitério de mártires islâmicos do mundo. Cerca de 30 mil iranianos que deram a vida pela revolução e pela teocracia estão enterrados aqui. Entre os mortos estão desde garotos que foram enviados para campos minados durante a guerra entre Irã e Iraque a poderosos líderes religiosos assassinados por opositores do regime. Cada sepultura é um lamento, mas também uma declaração de fé no islamismo, na teocracia iraniana e na revolução.

Os mártires estão enterrados aqui à sombra do aiatolá Ruhollah Khomeini, cuja revolução islâmica derrubou o xá e cujo mausoléu nas redondezas é visível a grande distância. O próprio aiatolá ordenou que fosse enterrado não muito longe dos setores pobres, num último gesto de deferência para com os "soldados de pés descalços" da sua revolução - os quais, passados mais de 25 anos do estabelecimento da República Islâmica, ainda estão aguardando a promessa de bênçãos mundanas. Enquanto a aristocracia dos mulás na rica zona norte da capital conseguiu enriquecer desde a revolução, no verão de 1979, para os pobres do país restou pouco mais do que a esperança de uma vida melhor após a morte.

Mas, como se eles não tivessem tido revolução e guerra suficientes, são precisamente os perdedores e os desesperados, as vítimas da guerra e as eternas classes baixas da sociedade iraniana, que invocam o espírito do imã com cada flor depositada sobre o santuário de um mártir e cada prece rezada no mausoléu do aiatolá. Foram também os pobres e os despossuídos que, numa manifestação da sua crença na revolução, ajudaram a eleger presidente do Irã um homem que vê a si mesmo como o verdadeiro herdeiro de Khomeini - Mahmoud Ahmadinejad.

`VARREDOR DE RUA¿

Ahmadinejad, filho de um ferreiro, é mais fanático religioso que qualquer outro presidente desde os primórdios da República Islâmica. Uma de sua promessas de campanha foi fechar a bolsa de valores porque esta, segundo ele, viola a proibição islâmica do jogo. Numa tentativa de captar votos, Ahmadinejad prometeu aos bóias-frias das plantações de pistache do país a reforma agrária em nome da justiça islâmica e aos moradores pobres da cidade participação na propriedade das empresas estatais.

Ofereceu aos xiitas mais devotos visões da volta do 12º imã (que desapareceu na segunda metade do século 9.º sem deixar sucessor), chegando a desenhar com a própria mão um mapa ilustrando o caminho que esse messias percorreria quando retornasse para os fiéis xiitas. Em seu discurso na ONU em setembro, no qual vociferou contra o que chamou de política de "apartheid nuclear" dos EUA e exigiu que seu país tenha direito a um programa nuclear próprio plenamente desenvolvido, ele até alegou ser um iluminado - disse que estava cercado por uma luz enquanto falava e os líderes mundiais o fitavam "como que paralisados".

De fato, o comportamento de Ahmadinejad tem feito com que o mundo inteiro fique de olhos arregalados. Até seus partidários de Teerã estão sacudindo a cabeça. E mesmo assim, por mais lunático que ele possa parecer, seria um grave erro não levá-lo a sério.

Ahmadinejad, um conservador que se proclama "varredor de rua do povo", prometeu usar uma vassourae ferro para varrer tudo o que houver de impuro na sociedade e está impulsionando em nível sem precedentes o ódio a Israel. Sua retórica ficou tão inflamada que, mesmo num país onde virou rotina condenar o Estado judeu e desejar a morte dos EUA, parece exagerada.

No mês passado, num discurso transmitido pela TV estatal, o fanático novo presidente do Irã contestou, pela terceira vez, o direito de Israel de existir. O Holocausto, disse ele, é um mito que o Ocidente inventou para que se pudesse criar o Estado de Israel "no coração do mundo islâmico".

Anteriormente, numa conferência intitulada O Mundo sem o Sionismo, Ahmadinejad, citando seu modelo, Khomeini, exigiu que Israel fosse "varrido do mapa". Depois, numa conferência em Meca, propôs que o problema palestino fosse resolvido transferindo o Estado de Israel para a Alemanha ou para a Áustria.

As diatribes antiisraelenses de Ahmadinejad desencadearam uma forte e unânime tempestade de indignação. O presidente da França, Jacques Chirac, e todos seus colegas europeus ficaram indignados, assim como o normalmente prudente secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e também o papa Bento XVI. A retórica do presidente iraniano também levou o presidente americano, George W. Bush, a revisitar sua caracterização do Irã como parte de um "eixo do mal". Se o governo Bush conseguir o que quer, os incidentes incentivarão seus aliados europeus a seguir o exemplo americano e impor sanções ao Irã.

A questão, porém, continua sendo o tipo de sanção a ser imposta. Afinal, qualquer coisa que não seja um embargo à exportação de petróleo pelo Irã seria ineficaz. "Precisamos de uma ameaça digna de crédito", disse o ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, numa visita oficial a Washington.

Mas um embargo petrolífero é a última coisa de que os EUA precisam, porque China e Japão, dois dos maiores clientes do Irã, provavelmente não iriam aderir, e o abrupto aumento nos preços do petróleo também prejudicaria a economia americana. Além disso, os iranianos, durante negociações anteriores com os europeus, deram a entender que uma escalada do conflito poderia se tornar muito perigosa para o Ocidente. O Irã conta com um arsenal de mais de 2 mil minas marítimas, com as quais a Marinha de Teerã poderia facilmente fechar o Estreito de Hormuz. "Isso levaria a economia global para o brejo", adverte Michael Mazarr, especialista do National War College, em Washington.

O membro do Parlamento Europeu Daniel Cohn-Bendit, dos verdes, sugeriu que o Irã seja excluído da Copa do Mundo de futebol. Surpreendentemente, Thomas de Maizière, chefe de gabinete da chanceler alemã, Angela Merkel, considerou a proposta de Cohn-Bendit "interessante", mas acha que cabe ao mundo esportivo tomar essa decisão. Num artigo publicado no Welt am Sonntag, Maizière anunciou que o governo alemão pretende explorar medidas contra o Irã na ONU. Ao dar esse passo, os alemães esperam incentivar a União Européia a lançar uma iniciativa conjunta.

ISRAEL

O governo israelense tem se mostrado relativamente calmo em relação ao assunto, o que levou à especulação de que sua reticência seja um sinal de que esteja planejando secretamente um ataque ao Irã.

Há muito Israel está convencido de que o Estado dos mulás está tentando intensamente desenvolver armas nucleares. Israel também está convencido de que deve, com o mesmo vigor, impedir o Irã de conseguir isso. Numa tentativa de intensificar a reprovação internacional ao alegado programa de armas nucleares do Irã, Israel começou a usar seus serviços de informações para canalizar dados sobre o programa nuclear iraniano para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegando a fornecer aos inspetores da agência imagens feitas por satélites de vigilância israelenses que mostram instalações suspeitas de serem nucleares.

Até recentemente, Israel, uma potência nuclear que não faz parte da AIEA, considerava o diretor da agência, o Nobel da Paz Mohammed el-Baradei, muito brando com o Irã. Numa mudança de posição, Israel passou repentinamente a ver Baradei como um aliado em potencial. Num discurso no Parlamento israelense no dia 13, o chefe do Estado-Maior de Israel, Dan Hanuz, alertou que o Irã será capaz de enriquecer urânio num grau suficiente para que, dentro dos próximos meses, possa construir bombas nucleares com tecnologia de ponta. Mas os especialistas acreditam que o Irã ainda enfrentará obstáculos significativos até que esteja em condições de desenvolver sua primeira arma nuclear utilizável.

Até agora, Binyamin Netanyahu, o opositor conservador do primeiro-ministro Ariel Sharon, foi o único político importante israelense a clamar publicamente por um "ataque militar preventivo". Sharon não fez comentários sobre nenhum ataque em planejamento, mas avisou, por um porta-voz, que as Forças Armadas de Israel estão em condições de impedir uma "segunda solução final", em referência ao Holocausto.

No entanto, atacar as instalações nucleares iranianas seria altamente arriscado. Em 1981, caças israelenses conseguiram atrasar as ambições nucleares do então ditador iraquiano, Saddam Hussein, por anos quando, com um único ataque ousado, destruíram o reator nuclear de Tuweitha, nas proximidades de Bagdá.

Para conseguir um efeito semelhante no Irã, seria necessária uma investida bem-sucedida contra pelo menos 12 alvos. O governo do Irã espalhou sua produção nuclear pelo país inteiro, situando as principais instalações em locais subterrâneos bem protegidos.

Moderchai Kedar, professor de Estudos Árabes em Ramat Gan, leva a retórica do Irã muito a sério. Ele encara as provocações de Ahmadinejad como a expressão de um "nuclearteísmo" que atualmente prevalece em Teerã. Segundo Kedar, compreender o conceito de Welayat-e Fakik, a supremacia dos eruditos religiosos, é fundamental para entender o poder dos mulás. De acordo com este conceito, diz Kedar, o poder de um governo dos devotos é uma expressão da vontade de Deus, o que tornaria o regime infalível.

No próprio regime iraniano, Ahmadinejad também já causa preocupação. O líder máximo do país, o aiatolá Ali Khamenei, já advertiu seu protegido de que ele foi eleito para resolver os problemas sociais do país, não para ir à guerra com Israel. Ao mesmo tempo, Khamenei ampliou os poderes de um conselho encarregado de supervisionar o governo. Esse conselho é controlado pelo ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, considerado um dos homens mais poderosos do Irã. Depois de perder a eleição para Ahmadinejad, Rafsanjani não perde uma oportunidade de humilhar seu adversário. "Não temos nenhum problema com os judeus", disse Rafsanjani dias atrás, numa tentativa de abrandar a indignação mundial com relação aos comentários de Ahmadinejad. De fato, o Irã tem mais de 30 mil cidadãos judeus, que vivem no país sem ser importunados, freqüentam suas sinagogas e têm representação no Parlamento.

Até a maioria conservadora no Parlamento tem oposto resistência a Ahmadinejad. E correm rumores em Teerã de que os dias do presidente podem estar contados, porque forças pragmáticas dentro do regime estariam preparando um golpe. Aparentemente, a elite política iraniana quer impedir Ahmadinejad de deixar o país ainda mais isolado.