Título: A indústria exporta mais
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/01/2006, Notas e Informações, p. A3
Parte da indústria brasileira já não vê mais as exportações apenas como uma tábua de salvação nos momentos de dificuldades para vender no mercado interno, nem procura aumentar suas vendas ao exterior somente quando a taxa de câmbio é estimulante. Ela está ampliando de maneira consistente sua presença no mercado externo. De 1999 para cá, período em que a economia enfrentou dificuldades variadas, a fatia da produção que a indústria exportou cresceu de maneira contínua, tendo atingido, em 2004, um quarto de tudo o que produziu. É o que mostra estudo do economista do BNDES Fernando Pimentel Puga, segundo o qual, em 1996, a indústria brasileira exportou 17,9% de sua produção e, em 2004, 24,8%.
Em 2005, apesar do dólar fraco, as exportações de produtos industriais cresceram mais depressa do que a produção, o que significa que essa fatia continuou a crescer. A simples observação da tabela, publicada no jornal Valor, da evolução do coeficiente de exportação (porcentagem das exportações em relação à produção) da indústria brasileira a partir de 1996 deixa evidente o papel da política cambial sobre as vendas externas. Na primeira fase do Plano Real, quando a contenção da inflação foi baseada na valorização do real em relação ao dólar, período em que se utilizou de maneira intensa a chamada âncora cambial, esse coeficiente se reduziu até 14,1% em 1998. Pequena melhora, para 15,1%, foi registrada em 1999, quando a política cambial foi drasticamente alterada e se adotou o câmbio flutuante. Desde então, o coeficiente passou a subir constantemente, e a um ritmo bastante intenso, de quase 2 pontos porcentuais por ano, em média. O ritmo se intensificou a partir de 2001, quando começou a diminuir a porcentagem das importações sobre o consumo interno. Como mostrou Fernando Puga em trabalho anterior, que elaborou com André Nassif, também do BNDES, e foi publicado em dezembro de 2004 pela revista do banco, 'aumentos expressivos da taxa de câmbio real costumam deflagrar um processo de substituição competitiva das importações, reforçando, ao mesmo tempo, uma maior orientação relativa das atividades produtivas para o mercado internacional'.
É curioso, contudo, que, quando não ocorrem mudanças tão profundas na política cambial como a decidida em 1999, não se observa uma correspondência automática e nítida entre desvalorização do dólar e redução da fatia exportada pela indústria brasileira.
Assim, apesar da valorização do real em relação ao dólar que se observa há vários meses, pelo menos até agora não houve o movimento contrário, isto é, o crescimento mais intenso das importações e mais lento das exportações. Estas continuam a se expandir mais depressa do que a produção. No primeiro semestre de 2005, as vendas externas de produtos industriais cresceram 12,3%, enquanto a produção aumentou 2,5%, razão pela qual, nesse período, o coeficiente de exportações da indústria continuou a crescer de maneira rápida. Alguns setores da indústria sentiram fortemente o impacto da valorização do real, que reduziu a rentabilidade de suas exportações. A indústria de calçados, couros e peles, por exemplo, reduziu em 2,7% suas exportações no primeiro semestre de 2005, período em que sua produção cresceu 2,5%. Outros, porém, a despeito do real valorizado, aumentaram muito seu coeficiente de exportações. Enquanto a produção de equipamentos eletrônicos aumentou 17,9% no primeiro semestre, as exportações desses produtos cresceram 126%. As vendas externas de máquinas e tratores, de sua parte, aumentaram 25,7%, contra aumento de 3,9% da produção.
A necessidade de cumprimento de contratos assinados com compradores do exterior e a forte demanda internacional, em decorrência da rápida expansão da economia mundial, que deve chegar a 4,5% em 2005, devem explicar boa parte do crescimento das vendas externas brasileiras mesmo numa época em que a taxa de câmbio foi considerada desfavorável por muitos exportadores. Mas é provável que outra parte se deva à consolidação da presença de mais indústrias brasileiras no mercado externo.