Título: Lula nega uso eleitoral de obras. E chama candidatos ao palanque
Autor: Ana P. Scinocca, Angela Lacerda e Leonencio Nossa
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/01/2006, Nacional, p. A4

Mesmo dizendo que não tem pressa em definir se disputará a reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gastou o dia de ontem em visitas a três trechos em reforma da Rodovia BR-101 Nordeste com um discurso de campanha eleitoral. ¿Governador é para estar aqui mesmo, prefeito é para estar aqui mesmo, deputado é para estar aqui mesmo, candidatos é para estarem aqui mesmo¿, discursou o presidente em Goiana, a 60 quilômetros do Recife, para saudar a presença de aliados em seu palanque e pedir sua presença nas inaugurações que realizará até o fim do ano. A seu lado estavam quatro pré-candidatos ao governo de Pernambuco e integrantes da base aliada ¿ o ex-ministro de Ciência e Tecnologia Eduardo Campos (PSB), o ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT), o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto (PDT), e o deputado Inocêncio Oliveira (PL).

Antes, em São José de Mipibu, a 30 quilômetros de Natal, Lula disse que vai continuar viajando, ¿e muito¿, e não perde o sono pensando se disputa ou não a reeleição. Aproveitou também para alfinetar indiretamente o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito paulistano, José Serra, que travam duelo para representar o PSDB na disputa à Presidência. ¿Candidatura tem hora de definir. Se alguém tem pressa de definir com antecedência, que defina¿, disse. ¿Eu não tenho essa preocupação agora. Isso não me faz perder um segundo de sono.¿

CHAPÉU

Acompanhado do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, e dos senadores Fernando Bezerra (PTB-RN) e Ney Suassuna (PMDB-PB), Lula conversou com coordenadores da operação, ouviu explicações sobre o ritmo das obras, ganhou um chapéu do Exército ¿ que imediatamente pôs na cabeça ¿ e até deu entrevista para a imprensa. ¿Querem falar agora?¿, perguntou aos jornalistas.

Bem-humorado, chegou a voltar para responder a uma pergunta, quando a rápida entrevista já tinha sido dada por encerrada. Ao ser indagado sobre a confiança do PSDB em vencer a disputa neste ano, Lula riu. Repetiu que, no momento, sua única preocupação é com a condução do País. ¿Quem deve ter preocupação são os adversários. Eu estou tranqüilo, porque tenho de governar o Brasil até o dia 31 de dezembro. Tem uma legislação, tem condições. No momento certo vamos decidir quem é candidato, se eu sou ou não sou candidato, e aí todo mundo ficará sabendo, porque eu terei interesse em dizer.¿

Antes dessa entrevista, o presidente discursou de improviso por exatos 6 minutos, e praticamente apenas para a imprensa ¿ do outro lado da estrada, apenas umas poucas pessoas acompanhavam a solenidade. A fala não havia sido prevista pelo Planalto por determinação do próprio Lula. ¿Eu até pedi para não montar palanque para dizer que não é campanha, porque lamentavelmente é assim: se você não faz, vira campanha do adversário, se você faz, diz que é campanha sua. Entre não fazer e fazer, eu prefiro ser criticado fazendo, porque pelo menos o povo sofre menos.¿

QUEIXAS

Em Alhandra, a 35 quilômetros de João Pessoa, Lula voltou a se queixar dos adversários que, de acordo com ele, tentam faturar diante de qualquer situação. ¿Se eu não estivesse fazendo as obras, eles iriam aproveitar por conta da eleição. Se estou fazendo, dizem que sou eleitoreiro.¿

Indagado se os oposicionistas estariam tentando engessar o governo, Lula respondeu que as críticas fazem parte do jogo político. ¿Não falo em golpe branco, porque isso não é novo. Na história política brasileira sempre tem aqueles que estão na oposição, tentando dificultar o governo¿, ressaltou.

Ele disse que só estava na Paraíba porque outros governantes prometeram a duplicação da BR-101, mas não cumpriram. Perto dele estava o governador, o tucano Cássio Cunha Lima. Argumentou que as obras de recuperação de 142,5 quilômetros da BR-101, de Natal (RN) a Palmares (PE), orçadas inicialmente em R$ 521 milhões, são importantes para o Nordeste, especialmente para Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Repetindo um discurso feito em dezembro, em Macapá, Lula afirmou que o governo, depois de três anos, não vai abrir mão, embora seja um ano eleitoral, de colher os frutos de suas realizações. ¿Você passa três anos criando as condições, plantando, adubando e regando. Agora, se está na hora de colher, por que vai deixar para os adversários?¿, questionou.