Título: `A terra é uma necessidade¿
Autor: Roldão Arruda
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/01/2006, Nacional, p. A4,5
Fernando Gabeira: deputado pelo PV do Rio
O sr. concorda que a exigência de índios por terras passa dos limites, como diz o presidente da Funai?
Discordo. Se a discussão for posta nesses termos, inclusive partindo de um governo popular, vai estimular evidentemente a reação contra os índios, que já é muito grande, registrada pelo Cimi e outros órgãos. Também não seria correto afirmar que há pouca terra. O correto é avaliar a situação caso a caso, levando em conta a visão mais ampla da sobrevivência cultural e espiritual, maior do que distribuir a terra só pensando na sobrevivência física.
Aparentemente, o Cimi acha que a terra resolve o problema da população indígena. O sr. concorda?
A terra é uma necessidade. No caso dos guarani-caiovás, é evidente que um dos pontos que estrangulam é o fato de as terras não serem demarcadas e eles estarem concentrados, sem chances de crescer. No caso dos ianomâmis, o problema não é mais terra, é assistência médica. Por isso acho que enquanto discutimos se é muita ou pouca terra, perdemos o foco e abrimos caminho para uma repressão maior contra os índios.
É tempo de rever a legislação a respeito das populações indígenas?
Não conseguimos votar nem o Estatuto do Índio, não há uma legislação completa. Sobre o que está na Constituição, é possível discutir.
Como vê a atuação das ONGs?
Não são só as ONGs, é um apoio mundial expressado por seus dirigentes máximos, como o G-8. A questão dos índios aqui não tem a simplicidade que os fazendeiros supõem nem que o governo Lula supõe, é muito mais complexa. Temos de tratá-la com seriedade.