Título: Ata do Copom indica cautela na queda do juro
Autor: Isabel Sobral
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/01/2006, Economia & Negócios, p. B3

Texto referente à primeira reunião do ano não revela sinais de empolgação dos diretores do Banco Central para reduzir mais rapidamente a taxa Selic

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, indica que o Banco Central (BC) deverá manter a cautela na próxima rodada, marcada para 7 e 8 de março. O documento trouxe avaliações positivas do cenário econômico, mas não deu sinais de empolgação dos diretores do BC em reduzir mais rapidamente os juros. Dessa forma, a ata reforçou o entendimento dos analistas de mercado que, se não houver nenhum imprevisto, o corte na taxa de juros em março será de 0,75 ponto porcentual, tal como ocorreu em janeiro. Com isso, a taxa básica de juros (Selic) cairia dos atuais 17,25% para 16,50% ao ano.

"O Copom reafirma que continuará conduzindo suas ações de forma a assegurar que os ganhos obtidos no combate à inflação até o momento sejam permanentes. Para tanto, acompanhará com atenção, nos próximos meses, a evolução da inflação e das diferentes medidas do seu núcleo, discriminando entre reajustes pontuais e reajustes persistentes", afirma a ata.

O BC avaliou que, nos levantamentos preliminares, a alta dos preços ao consumidor em janeiro demonstrou "um ritmo acima do esperado" para o início do ano. Ao mesmo tempo, porém, os números ajudaram a reforçar a impressão de que os aumentos são transitórios.

Um exemplo de como a inflação deu um soluço no início do ano é o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M). A primeira prévia de janeiro ficou em 0,40%, número mais elevado do que a prévia de dezembro (0,06%). O mesmo comportamento ocorreu no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), da Fipe: subiu 0,46% na primeira quadrissemana de janeiro, ante 0,29% no mês anterior.

"Ainda assim, eles disseram que consideram a oferta condizente com a demanda e, como (a ata) informa que vai distinguir os reajustes entre pontuais e permanentes, isso aumenta as chances de um novo corte de 0,75", disse o sócio da consultoria Tendências, Gustavo Loyola, ex-presidente do BC.

O comitê prevê para o fim do ano que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fique abaixo da meta de 4,5%, mas pouco acima dos 3,8% estimados em dezembro no relatório de inflação, quando a Selic ainda estava em 18% ao ano.

Para o economista da consultoria Mauá Investimentos, Caio Megale, a ata foi neutra, mas deixou as portas bem abertas para manter as expectativas de novo corte de 0,75 ponto nos juros. Ele ressaltou, entretanto, que a ata é pouco informativa, repete análises e conceitos e dá a sensação de que os diretores têm pouca certeza sobre o ritmo de queda nos juros.

O Copom vê riscos de novas pressões inflacionárias na trajetória dos preços internacionais do petróleo que, diz a ata, "continuam voláteis e permanecem em níveis elevados historicamente". Apesar da incerteza, os diretores acham que a Petrobrás não deverá reajustar os preços dos derivados este ano. A projeção de reajuste do conjunto das tarifas públicas para este ano foi mantida em 4,6%, a mesma de dezembro.