Título: Fogo, tiros: Fatah protesta nas ruas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28/01/2006, Internacional, p. A16

Mais de 15 mil pediram em Gaza renúncia de funcionários corruptos e rejeição de coalizão com Hamas

Milhares de partidários da Fatah, o partido governista palestino derrotado pelo grupo Hamas nas eleições de quarta-feira, fizeram ontem irados protestos na Faixa de Gaza, queimando carros e atirando para o ar. Os manifestantes exigiram a renúncia imediata dos funcionários corruptos e insistiram em que a Fatah não integre um governo com o Hamas.

Em toda a Faixa de Gaza os protestos reuniram entre 15 mil e 20 mil pessoas diante da representação do Parlamento em Gaza, da casa do presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmud Abbas - que está em Ramallah, na Cisjordânia - e das sedes das forças de segurança. Entre os manifestantes estava Mohamad Dahlan, um dos poucos dirigentes da Fatah que se elegeu no território.

Os partidários da Fatah atribuem a vitória do Hamas à ampla corrupção na administração pública. "Somos contra uma coalizão com o Hamas porque isto será um desastre para a Fatah e o povo palestino", disse Samir Mushrawi, um líder local do grupo em Gaza, derrotado nas eleições. "Queremos uma oposição forte e lutar para pôr fim à corrupção de alguns líderes históricos da Fatah."

Eles fizeram um chamado a Abbas, que também dirige a Fatah, para que não aceite um governo de coalizão com o Hamas. Os líderes da Fatah já anunciaram sua decisão de permanecer na oposição, mas o Hamas está adotando um tom conciliatório e marcou uma reunião com Abbas para discutir "uma parceria política".

O grupo quer um governo de coalizão nacional. Mahmud A-Zahar, tido como homem forte do Hamas na Faixa de Gaza, disse ontem que a formação do governo levará de duas a três semanas. "Não será apenas o nosso governo. Vamos trabalhar com a Fatah, os independentes e outros partidos para formar um governo nacional." O líder da lista partidária do Hamas, Ismail Hanyie, disse que se reunirá com Abbas quando ele chegar a Gaza, dentro de uns dois dias.

Mas um dos braços armados da Fatah, as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, chegou a divulgar um comunicado ameaçando "liquidar os dirigentes" se eles mudarem de idéia e fecharem um acordo com o Hamas. Controlar as Brigadas será uma das dificuldades do Hamas no governo. Enquanto o Hamas e a maioria das facções palestinas se comprometeram no início do ano passado com uma trégua nos ataques contra Israel, as Brigadas mantiveram as ações armadas, apesar de serem um ramo da Fatah, o partido de Abbas.

Como presidente palestino, cabe a Abbas convocar o grupo com mais votos para formar o governo. O Hamas conquistou 76 das 132 cadeiras, ficando a Fatah com 43 e vários grupos pequenos, na maioria laicos, com as 13 restantes. "Nós estamos fazendo consultas e em contato com todos os grupos palestinos. No tempo apropriado, o partido maior formará o gabinete", declarou Abbas.

Na Cisjordânia, a situação está mais calma, mas a tensão é gra nde entre os dois grupos na Faixa de Gaza. Ontem, militantes dos dois grupos trocaram tiros por duas vezes na cidade de Khan Yunis, no sul do território. Seis pessoas ficaram feridas.

PESQUISA

Entre 40% e 50% dos israelenses consideram que o país deve negociar com um dirigente do governo da Autoridade Palestina liderado pelo Hamas, segundo pesquisas divulgadas ontem. De acordo com a enquete do diário Maariv, 40% apóiam a idéia de negociação, se o Hamas renunciar a sua determinação de destruir Israel, 27% afirmam que Israel deve manter conversas incondicionais e seguir o mapa da estrada, último projeto de plano de paz. Outros 29% querem que o país interrompa os contatos com os palestinos.