Título: Irã será levado ao Conselho da ONU
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Fonte: O Estado de São Paulo, 01/02/2006, Internacional, p. A10
A crise desencadeada pela questão nuclear iraniana ganhou intensidade ontem com a decisão dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança de levarem o caso à essa instância máxima de poder na ONU. A decisão dos EUA, França, Grã-Bretanha, China e Rússia será formalizada na reunião de emergência de amanhã, em Viena, da junta de governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
O Irã reagiu imediatamente advertindo que, se a AIEA encaminhar o caso ao CS, isso significará o fim da via diplomática e a retomada plena de suas atividades de enriquecimento de urânio. Além disso, o governo iraniano avisou que a partir de sábado deixará de permitir as inspeções aleatórias da AIEA a suas instalações, com as quais se comprometeu por um protocolo assinado em 2003 (ler ao lado).
Por enquanto, o Irã afirma ter reiniciado em janeiro apenas as pesquisas para o enriquecimento de urânio, e não o enriquecimento, e insiste que usará o urânio enriquecido em usinas de produção de energia elétrica. Mas os americanos e europeus acusam o país de manter um programa secreto para fabricação de armas atômicas.
No início da noite de ontem, a crise se agravou com a confirmação de que o Irã, embora ainda não tenha reiniciado o enriquecimento, se prepara para fazer isso em sua usina de Natanz, centro do país. Essa informação consta do documento reservado da AIEA que será discutido na reunião de amanhã.
Alguns trechos foram vazados para a imprensa ontem, como o que destaca que o Irã comprou no mercado negro informações sobre fabricação de componentes de armas nucleares, continua não esclarecendo numerosos pontos relacionados a seu programa atômico e se nega a fornecer dados sobre experimentos relacionadas com explosivos de alto poder. O relatório assinala ainda que o Irã não permitiu aos inspetores da AIEA copiarem um documento de 15 páginas relativo à fabricação de componentes de armas nucleares.
Caberá à reunião dos 35 membros da junta de governadores - da qual o Brasil faz parte - formalizar o envio do caso ao CS. Isso não significa, porém, uma ação imediata da ONU. Na reunião dos chanceleres dos cinco membros permanentes do CS, que terminou na madrugada de ontem, em Londres, ficou decidido que o CS somente discutirá o assunto após a reunião regular da AIEA em 6 de março. Nessa data, o diretor-geral da AIEA, Mohammed el-Baradei, apresentará seu relatório sobre o programa nuclear iraniano (mais abrangente que o que será divulgado nesta quinta-feira) e dará seu parecer sobre se o Irã está cumprindo seus compromissos.
O CS poderia declarar o Irã uma ameaça à segurança internacional e lhe impor sanções econômicas. O mais provável, porém, é que apenas aprove uma resolução de advertência para que o país retome as negociações e suspenda as atividades de enriquecimento de urânio. Isto porque, China e Rússia - países com poder de veto no CS - se opõem a sanções. A China compra petróleo iraniano e a Rússia constrói uma usina nuclear no Irã. O intervalo até março permitiria ao Irã buscar uma solução conciliatória. No entanto, o país não dá sinais de que cederá à pressão. "Nós nunca vamos abandonar nossos direitos à tecnologia nuclear", reiterou ontem o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad.