Título: Saúde passa a ser prioridade
Autor: Rolf Kuntz
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/01/2006, Economia & Negócios, p. B4

Foram lançados planos contra tuberculose e aids

A saúde subiu para o topo das prioridades da agenda global, impulsionada pelo temor de uma epidemia de gripe aviária, considerada pelas principais lideranças políticas e empresariais o maior risco global no início de 2006. Embora a pobreza não estivesse tão presente na pauta do Fórum Econômico Mundial de 2006 quanto na de 2005, aumentou o espaço das discussões sobre saúde.

Parte das iniciativas recentes do mundo rico para aliviar a pobreza global está ligada à saúde. Dos oito Objetivos do Milênio firmados por 191 países em 2000, cinco estão direta ou indiretamente ligados à saúde, como os de reduzir em dois terços a mortalidade infantil e pela metade o número de pessoas sem água tratada até 2015.

Na reunião de Davos deste ano, alguns dos principais anúncios e fatos novos foram ligados à saúde. Foi lançado, por exemplo, um novo plano de combate à tuberculose, com meta de tratar 50 milhões de pessoas e evitar 14 milhões de mortes nos próximos dez anos. O custo total do programa é de US$ 56 bilhões, sendo US$ 47 bilhões para controle da tuberculose e US$ 9 bilhões para pesquisa.

Para que aquele valor total seja atingido, são necessários mais US$ 31 bilhões, e a previsão é de que 40% virá de doações dos países ricos e 60% das próprias nações afetados pela tuberculose.

Batizada de "Plano Global para Deter a Tuberculose", a nova iniciativa foi anunciada em Davos num painel que reuniu Bill Gates, o fundador da Microsoft e homem mais rico do mundo; Olusegun Obasanjo, presidente da Nigéria, um dos países mais afetados pela tuberculose; e Gordon Brown, ministro das Finanças do Reino Unido.

Durante o anúncio, Bill Gates comprometeu-se a elevar de US$ 300 milhões para US$ 900 milhões o total a ser doado por sua Fundação para o combate à Tuberculose até 2015. "Se nós temos a chance de salvar 14 milhões de vidas e temos um plano claro de como fazê-lo, temos a obrigação de agir", disse Gates.

Outro anúncio em Davos ligado à saúde foi a campanha do Produto Vermelho, voltada ao combate da aids, tuberculose e malária, e que tem como um dos principais idealizadores o pop star Bono Vox, do U2. O plano é de que marcas como American Express, Gap e Giorgio Armani lancem produtos que incluam no seu design o símbolo vermelho do combate à aids, ou a cor vermelha, e que parte do faturamento da venda destes produtos seja canalizada para o Fundo Global de combate à aids, tuberculose e malária.

Atualmente, o setor privado só responde por 1% dos recursos do Fundo Global, o maior programa internacional do mundo contra a aids. A idéia por trás da campanha do Produto Vermelho é aumentar aquele porcentual.

"As pessoas assistem à maior crise de saúde dos últimos 600 anos e não sabem o que fazer; esta campanha é para que as pessoas façam o que gostam e o bem ao mesmo tempo", disse Bono. A referência dele foi à aids, que matou 3 milhões em 2004, a grande maioria na África, onde há países com índices de infecção superiores a 30% da população adulta. O intervalo de 600 anos é o tempo decorrido desde a peste negra, que teve o auge em 1348, e chegou a matar um terço da população em diversas partes da Europa.

As razões pelas quais os governos e a população dos países ricos estão cada vez mais preocupados com a saúde global são parcialmente altruístas, como no caso da compaixão pelo desastre humano causado pela aids na África. Há ainda um crescente temor de que, com a globalização e os fluxos cada vez mais intensos e mais rápidos de pessoas, novas e mortais doenças iniciadas no mundo em desenvolvimento tornem-se epidemia global, e atinjam países desenvolvidos.

Apesar de todo o temor dos ricos do contágio das doenças dos pobres, o maior problema da saúde global tem natureza quase inversa. Na verdade, várias das doenças que mais matam no mundo, como a tuberculose e malária, já foram erradicadas de países ricos, o que faz com que os gastos com pesquisa e produção de novas drogas para estas enfermidades sejam reduzidos.

Um exemplo muito repisado em Davos este ano é que em um espaço de tempo muito pequeno foram arrecadados US$ 1,3 bilhão para ajudar às vítimas do tsunami no final de 2004, que teve um total de vítimas de no máximo 300 mil. Em comparação, 1 milhão de crianças morre de malária todo ano, e a maioria destas mortes poderia ser evitada com programas que incluem medidas simples e baratas.