Título: Irã volta a enriquecer urânio
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Fonte: O Estado de São Paulo, 14/02/2006, Internacional, p. A10

Diplomatas em Viena asseguram que o país retomou a atividade, contrariando decisão de agência ligada à ONU

REUTERS, AP E AFP VIENA

O Irã retomou o enriquecimento de urânio em pequena escala, apesar de estar sob pressão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para que congele essa atividade e esclareça aspectos suspeitos de seu programa nuclear.

Segundo diplomatas em Viena, sede da AIEA (agência ligada à ONU), o Irã retomou o processo ao introduzir gás nas centrífugas de sua usina piloto de enriquecimento em Natanz, centro do país. Em Teerã, um funcionário do primeiro escalão do governo afirmou que o Irã pretendia retomar o enriquecimento no domingo ou ontem, mas não indicou se de fato isso havia sido feito. O governo avisou apenas que não esperará a reunião da AIEA, marcada para o dia 6, para reiniciar o enriquecimento de urânio.

Se confirmado, o gesto iraniano comprovaria que o país está determinado a não acatar nenhuma determinação da AIEA que restrinja suas atividades no campo nuclear. Ontem o Irã deu novo sinal de não estar aberto ao diálogo ao comunicar o adiamento, por tempo indeterminado, das conversações com a Rússia sobre a produção de combustível nuclear em usinas russas. Essa reunião seria na quinta-feira.

A retomada do enriquecimento e o adiamento das negociações com a Rússia aprofundam a crise envolvendo o programa nuclear do Irã. A oferta russa, apoiada pelos EUA e União Européia, tem sido encarada como última opção para evitar um impasse que obrigue o Conselho de Segurança (CS) da ONU a intervir.

O governo iraniano alega que pretende enriquecer urânio em pequena escala, somente para uso como combustível em reatores nucleares em usinas destinadas à produção de energia elétrica. Os EUA e a União Européia temem que o país tenha planos de fabricar armas atômicas. O processo de enriquecimento envolve a colocação de gás de urânio em centrífugas que purificam o material. Se a purificação for em níveis baixos, o urânio serve apenas como combustível. Mas se o enriquecimento se aproximar dos 90% - processo mais longo e difícil - o país seria capaz de produzir armas atômicas. Segundo peritos, o Irã levaria muitos anos para atingir esse ponto.

Como membro da AIEA, o Irã tem o direito de dominar o ciclo completo da energia nuclear para fins pacíficos, o que inclui o enriquecimento de urânio, desde que sob supervisão da agência. Não pode fabricar armas atômicas porque é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

O Irã passou a ser alvo de pressão internacional depois que, em 2003, a AIEA descobriu que mantinha havia 18 anos um programa secreto de enriquecimento de urânio, quebrando, portanto, seu compromisso de transparência.

Pressionado pela AIEA, em 2004 o governo iraniano concordou em congelar essa atividade e aceitar inspeções mais amplas e aleatórias em suas instalações nucleares. Esse compromisso foi rompido em janeiro, com a decisão do Irã de retomar as pesquisas sobre o enriquecimento, o que levou a junta de governadores da AIEA a aprovar, no dia 4, uma resolução enviando a questão nuclear iraniana à avaliação do Conselho de Segurança da ONU. Diante da decisão da junta, o Irã proibiu no dia seguinte as inspeções aleatórias da AIEA em suas instalações.

Ontem o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, fez um chamado ao Irã para que adote, até a reunião da AIEA, medidas que permitam o reinício do diálogo sobre seu programa nuclear. No dia 6, o diretor da AIEA, Mohamed el-Baradei, divulgará um relatório amplo sobre as atividades nucleares iranianas - indicando se o país está cooperando plenamente.

Em uma entrevista ao diário americano USA Today, o presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, culpou ontem os EUA pelo aumento da tensão com Teerã. "Eles escolheram ameaçar-nos, fazer falsas acusações. Querem impor seu estilo de vida aos outros e isso não é aceitável."