Título: 'Nenhum país está livre da ameaça'
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/02/2006, Vida&, p. A16

Mesmo flanqueado por dois oceanos, o continente americano - incluindo o Brasil - não está livre do risco da gripe aviária. "Dada a crescente expansão geográfica do H5N1, é certamente correto dizer que nenhum país está totalmente livre de sua ameaça", disse ao Estado Maria Cheng, porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O maior temor é se o vírus desenvolverá a capacidade de passar não apenas de aves para seres humanos, mas de pessoa para pessoa. Caso isso ocorra, as epidemias localizadas poderão dar lugar a uma pandemia de influenza, com conseqüência potencialmente catastróficas.

Segundo Cheng, entretanto, não há como prever onde, como ou quando isso poderá acontecer. "Poderia ser em qualquer lugar do mundo." Veja os principais trechos da entrevista.

Pesquisas feitas com o vírus H5N1 na Turquia em janeiro indicavam que ele já tinha mutações que o tornavam mais adaptado ao organismo humano. Como ocorrem essas mutações e como elas podem tornar o vírus mais contagioso?

Os vírus influenza sofrem mutações constantes, por isso não é surpresa encontrar mutações no H5N1. Na verdade, as mutações observadas no vírus da Turquia já haviam sido detectadas no sul da China e no Vietnã. É muito difícil dizer o que essas mutações representam isoladamente, sem que estejam associadas a mudanças na epidemiologia ou nas manifestações clínicas da doença. É importante também notar que as mutações da Turquia foram identificadas em apenas uma amostra do vírus, o que significa provavelmente que era uma variação isolada, e não uma tendência generalizada.

No geral, quanto do vírus já foi modificado, desde as primeiras infecções na Ásia até os casos mais recentes, na Europa?

O vírus H5N1 que foi detectado na Turquia e, mais recentemente, na Nigéria é muito semelhante ao que foi originalmente detectado no oeste da China em 2005. Esse mesmo vírus foi detectado na Rússia, Ucrânia, Mongólia e Casaquistão.

Se o vírus sofre mutações constantes, seria apenas uma questão de sorte (ou azar) para que ele se torne contagioso entre pessoas, como numa loteria genética? Que grau de mutação seria necessário para que isso acontecesse?

Infelizmente, não sabemos o suficiente sobre o vírus para prever isso. O que podemos dizer é que o H5N1 tem características muito preocupantes: é capaz de aumentar sua distribuição geográfica e infectar seres humanos, causando uma doença grave. Não se sabe quais modificações genéticas são necessárias para que ele consiga ser transmitido de pessoa para pessoa - na verdade, não podemos nem mesmo prever se isso vai um dia acontecer de fato. Talvez o H5N1 nunca adquira essa capacidade, mas é preciso monitorá-lo continuamente.

O H5N1 pode infectar aves migratórias capazes de trazê-lo até as Américas? Qual é o risco do vírus atravessar o Atlântico?

Dada a crescente expansão geográfica do H5N1, é certamente correto dizer que nenhum país está totalmente livre da sua ameaça. O papel das aves migratórias na disseminação do vírus ainda é uma hipótese, mas a similaridade das cepas encontradas na China, Rússia, Ucrânia, Turquia e Nigéria reforçam a tese de que elas têm uma participação importante no processo. Mas não sabemos exatamente quais espécies de aves migratórias carregam o H5N1. É possível também que o vírus esteja sendo disseminado, ao menos parcialmente, pelo transporte de aves vivas.

É possível erradicar o vírus completamente, ou teremos que conviver com ele para sempre no meio ambiente, mesmo que a epidemia seja controlada?

Dada a experiência do Sudeste Asiático, seria otimismo demais pensar que o H5N1 pode ser erradicado. Já há tantos focos do vírus que é muito improvável que consigamos eliminá-lo. Os esforços devem ser concentrados na contenção, principalmente entre as aves, para que o risco de transmissão para o homem seja reduzido. O H5N1 é sem dúvida endêmico do sudeste da Ásia, o que exige uma estratégia de contenção de longo prazo. Este poderá ser o caso em outras regiões se o vírus não for combatido adequadamente nos estágios iniciais.

Se o vírus se tornar transmissível entre pessoas, quais poderão ser as conseqüências disso? O que precisaria ser feito nesse caso?

Se o vírus evoluir a ponto de ser transmitido facilmente entre pessoas, isso poderia significar o início de uma pandemia de influenza. É impossível dizer quão grave será a próxima pandemia - houve três pandemias no século 20 (1918, 1957 e 1968) e todas tiveram conseqüências variadas. O importante é que ainda há uma janela de oportunidade para que o mundo reforço sua capacidade de reação.

Onde é mais provável que isso ocorra: na Ásia, onde a epidemia começou, ou na Europa?

Também não há como prever isso. Podemos especular e dizer que é mais provável que isso aconteça no sudeste da Ásia, onde há maior circulação do H5N1, mas pode ser que não. Em qualquer lugar onde o vírus está circulando existe a possibilidade de que ele sofra mutações e dê início a uma pandemia. Ou então, o H5N1 poderia se recombinar com um vírus da gripe humana e dar origem a um novo vírus, com a capacidade de iniciar uma pandemia. Isso poderia acontecer em qualquer lugar do mundo.