Título: Não há razão para alarme, mas o câmbio já surte efeito
Autor: Isabel Sobral e Adriana Fernandes
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/02/2006, Economia & Negócios, p. B4

Para aqueles que criticam a forte valorização do real, o balanço de pagamentos de janeiro pode se somar à queda do ritmo de crescimento das exportações em fevereiro, e reacender preocupações com a vulnerabilidade externa da economia brasileira.

Evidentemente, tanto num caso, como no outro, não há razões para alarme, já que a situação ainda é extremamente tranqüila. Mas é possível argumentar que o primeiro déficit em conta corrente mensal desde dezembro de 2004 (um resultado que ficou bem mais negativo que o piso das previsões de mercado) e a redução do ritmo de crescimento das exportações para 4,1% são sinais de que o auge da robustez do desempenho externo do Brasil já passou.

É indiscutível que uma valorização cambial como a que o Brasil experimentou recentemente não poderia deixar de ter efeitos nas contas externas. O nível excepcionalmente alto - US$ 1,54 bilhão - das remessas de lucros e dividendos em janeiro, por exemplo, está associado à oportunidade das multinacionais de converter seus reais em dólares por uma taxa de câmbio que é percebida como muito valorizada. Da mesma forma, como observa Drausio Giacomelli, vice-presidente de Mercados Emergentes do JP Morgan em Nova York, já há alguns meses uma clara tendência de desaceleração nas quantidades exportadas de bens industriais, como efeito do câmbio, mas isto tem sido camuflado pelos preços altos das commodities que o o Brasil exporta.

Estas mudanças no setor externo, porém, não são necessariamente definitivas (os sinais ainda são muito iniciais para configurarem uma tendência), nem necessariamente más. À medida que o risco país cai, que a dívida externa líquida se reduz e os índices de solvência melhoram, é natural que a economia opere com menor margem de segurança - isto significa, na prática, um menor superávit em conta corrente.

* Fernando Dantas é jornalista