Título: 'Não encontrei ninguém no bairro que tenha votado em outro', diz partidário
Autor: José Maria Mayrink
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/02/2006, Internacional, p. A16

Eleitor de Jean Bertrand Aristide já nas eleições de 1990, o professor e empresário de informática Jean Paul Josué, de 32 anos, já está festejando a vitória de René Préval. "Votei nele porque sempre escolho aquele que tem chance de ganhar e de fazer alguma coisa pelo povo", disse Josué, ontem em seu escritório - um modesto barraco em Carrefour, na região metropolitana de Porto Príncipe.

Na manhã de terça-feira, ele pegou o carro e saiu cedo com a mãe e a filha para votar, num posto a um quilômetro de sua casa. "Todos ali eram Préval, não encontrei ninguém no bairro que tenha votado em outro nome", afirmou o professor, segurando-se a essa constatação para acreditar que a eleição de seu candidato está garantida.

Josué já tinha essa certeza três semanas atrás, quando assistiu a um comício de Préval em Carrefour. Cerca de 10 mil pessoas atenderam então ao apelo do Família Lavalas, o partido fundado por Aristide, para aplaudir Préval, um político popular e carismático. A multidão foi ao delírio e milhares de mãos se levantaram para mostrar os cartões de identidade, que serviriam como títulos eleitorais, quando Préval disse, num discurso inflamado e curto, que a eleição era a única maneira de o povo chegar ao poder.

"Préval vai ser eleito porque é trabalhador e fez muito pelos camponeses, sobretudo na região de Marmelade, onde nasceu", disse Josué, na esperança de que seu candidato dará trabalho e tranqüilidade ao país. "O Haiti precisa de democracia, desenvolvimento e paz para acabar com a violência", acrescentou. Do outro lado da cidade, numa movimentada rua de Pétion Ville, onde caminhonetes recém-importadas disputam espaço com ambulantes, Micheline Bailay, de 24 anos, aguarda com desilusão os resultados das urnas. Não diz quem era seu candidato, mas adianta que não era Préval.

"Não digo o nome, só digo que é um que não tem chance de ganhar", desconversou Micheline, depois de aconselhar duas colegas a não falar com um repórter estrangeiro. Funcionária de uma loja sofisticada e bem sortida de artigos eletrônicos, ela ganha um salário que mal dá para sobreviver. Se tem esperança e uma perspectiva de futuro? "Não existe esperança no Haiti. Aqui seria precisar recomeçar tudo do começo e não acredito que o novo governo fará isso", responde.