Título: Relatório de João Paulo será lido amanhã
Autor: Luciana Nunes Leal
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/03/2006, Nacional, p. A10

Amanhã, no Conselho de Ética, será a vez da leitura do pedido de cassação do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP). O deputado foi processado porque sua mulher, Márcia Regina, sacou R$ 50 mil de conta do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza. João Paulo disse acreditar que o dinheiro fosse do PT e alega que o valor foi usado para pagar pesquisas pré-eleitorais em Osasco (SP), seu reduto eleitoral.

O relator Cezar Schirmer (PMDB-RS) adiou o encerramento do processo porque, durante mais de um mês, aguardou documentos da CPI dos Correios e do Tribunal de Contas da União (TCU).

Vários fatores complicaram a situação do deputado. Inicialmente, João Paulo alegou que sua mulher foi ao Banco Rural resolver um problema na conta de TV a cabo. Dias depois, assumiu a versão do saque. A lista de visitas à agência mostrou que Márcia esteve três vezes ao banco, no mesmo dia.

Outro complicador foram provas levadas pelo próprio João Paulo. As notas fiscais da empresa Datavale, que teria feito as pesquisas em Osasco, têm números seqüenciais, embora tenham sido emitidas em 10 de setembro, 30 de setembro e 19 de dezembro de 2003, somando R$ 51 mil. A situação ficou ainda mais grave quando Schirmer descobriu que a empresa só recolheu impostos sobre essas operações em 2005 - reforçando suspeitas de que as notas foram emitidas após o início do escândalo do mensalão.

Relatório do TCU sobre possíveis irregularidades na contratação da SMPB, agência de Marcos Valério, pela Câmara, quando João Paulo presidia a Casa, é outro ponto comprometedor. De acordo com o TCU, a SMPB subcontratou 99,9% dos serviços, contrariando normas regimentais da Câmara.

O TCU também suspeita da contratação da empresa IFT - Idéias Fatos e Textos Ltda. Os auditores desconfiaram de pesquisas de opinião encomendadas para avaliar a imagem da Casa - que incluíam perguntas diretas sobre João Paulo. O deputado nega irregularidades e diz ser natural fazer a avaliação do presidente da instituição nesse tipo de sondagem.

O conselho deverá aprovar a cassação, mas, na avaliação dos próprios conselheiros, João Paulo tem grandes chances de ser absolvido no plenário, sobretudo com ajuda do chamado baixo clero. O deputado, que antes tinha pressa na conclusão do processo, agora avalia que é melhor ficar para trás na fila de cassações. Avalia que, com essa estratégia, aumentam as chances de salvar o mandato.