Título: TV digital do País influenciará região
Autor: Renato Cruz
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/03/2006, Economia & Negócios, p. B7
A escolha do padrão de TV digital no Brasil vai influenciar boa parte da América do Sul. Quem garante é Hernan Galperin, professor da Universidad de San Andres, em Buenos Aires, e autor do livro New Television, Old Politics (Televisão Nova, Política Velha), publicado em 2004 pela Cambridge University Press, em que analisa a transição para a TV digital nos Estados Unidos e no Reino Unido.
"A decisão do Brasil vai guiar a de outros países. No Mercosul, foi firmado um acordo na última reunião. A decisão da Argentina é de acompanhar o Brasil. Acho que pode haver alguma resistência dos radiodifusores, que insistem na decisão anterior, mas não deve ser uma posição forte. Os investimentos feitos foram mínimos", diz ", Galperin.
A Argentina tinha optado pelo padrão americano, chamado ATSC, mas decidiu rever sua posição. O ATSC é analisado também pelo Brasil, mas o ministro das Comunicações, Hélio Costa, prefere o japonês ISDB, ao lado de grandes emissoras, como a Globo, enquanto outros setores do governo acham interessante a proposta dos europeus, com o sistema DVB. O sistema americano ainda não permite transmitir imagens para dispositivos móveis, como celulares, uma das exigências dos radiodifusores brasileiros. O governo brasileiro prevê anunciar uma decisão sexta-feira.
Ao comparar a transição nos EUA e no Reino Unido, Galperin destaca que neste último ela foi mais bem sucedida. "Meu livro foi publicado já há alguns anos e, se analisarmos hoje, é ainda mais forte a evidência de que o modelo britânico teve mais êxito", afirma. "Com o aumento da competição, existe uma guerra de preços, processo que beneficia os consumidores e a implantação do sistema de TV digital. Nos EUA, há um processo basicamente parado pelo pouco interesse dos que supostamente deveriam liderar essa transição, os radiodifusores."
Galperin mostrou que o processo de transição nos EUA foi desenhado para manter a relação de forças existente no mercado de TV aberta. No Reino Unido, a digital foi pensada como forma de aumentar a competição. A Europa privilegiou a multiprogramação, pela qual quatro programas podem ser transmitidos num só canal. "Não é só a discussão sobre japonês versus americano, versus europeu", afirma Galperin. "Existem interesses muito fortes, que não têm a ver apenas com tecnologia, mas com o modelo industrial. A pressão sobre o governo é muito forte."