Título: Lula corre para incluir o turismo popular no 'pacote de bondades'
Autor: Mariana Barbosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/03/2006, Nacional, p. A4

Mares Guia pressiona empresários para lançar já em abril programa de viagens a baixo custo para classes C e D

Assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que neste carnaval teve oportunidade de descansar do "sofrido ano de 2005", o brasileiro também terá direito a um lugar ao sol neste ano eleitoral. O Planalto corre contra o tempo para pôr em execução até abril mais um programa voltado exclusivamente para as classes populares - onde se encontra justamente o principal eleitorado de Lula.

Trata-se do Vai Brasil, cuja missão é fazer com que brasileiros com renda mensal de R$ 800 a R$ 1.100 conheçam o Brasil, de preferência viajando de avião. O governo entra com a campanha de marketing e com a articulação institucional. Já as empresas aéreas, hotéis, locadoras de automóveis e operadoras turísticas entram com seus leitos, assentos e outras "capacidades ociosas".

Apesar de o programa ter sido idealizado há dois anos, a largada efetiva só foi dada no fim de janeiro, durante uma reunião do ministro com representantes da área de turismo em São Paulo. Desde então, o setor vem se reunindo quase diariamente para tentar colocar em pé, o mais rapidamente possível, o projeto e um portal na internet. O ministro tem pressionado para que o lançamento ocorra já em abril. No entanto técnicos envolvidos em sua preparação acreditam que é muito difícil inaugurar o serviço antes de agosto.

O Ministério do Turismo não revela o orçamento para a campanha, mas o ministro Walfrido Mares Guia já declarou que não faltarão recursos. No setor, fala-se em algo em torno de R$ 12 milhões. "O orçamento não está fechado. Tudo vai depender da adesão ao programa. Quanto mais pacotes houver, mais abrangente será a campanha", afirma a coordenadora do programa, Paula Sanches.

SAZONALIDADE

O programa é uma peça-chave para que o governo cumpra as metas do Plano Nacional do Turismo e prevê que, até 2007, 20 milhões de turistas brasileiros estarão viajando dentro do País. "O objetivo é incentivar o turismo doméstico e minimizar os efeitos da sazonalidade, aumentando a oferta e a procura nos períodos de baixa temporada", explica a coordenadora do Vai Brasil no Ministério do Turismo, Paula Sanches. O programa, diz a coordenadora, é "para todos". "Ele não exclui ninguém, mas inclui as classes C e D, que nunca viajaram, que têm preconceito ou medo de viajar."

A idéia é que todos os agentes do setor ofereçam seus produtos ou serviços a preços inferiores aos menores da baixa temporada ou de períodos de ociosidade. A partir dessa oferta, operadoras de turismo criarão várias opções de pacotes, que poderão ser acessados no portal www.vaibrasil.com.br. A venda, no entanto, não se dará por meio eletrônico, mas por intermédio de agentes de viagem, cujos contatos estarão no portal.

MARGENS

A expectativa do governo é iniciar o programa com uma oferta mensal de 120 mil assentos de avião e 600 mil leitos. No caso das companhias aéreas, o número equivale a cerca de 15% de sua capacidade. A hospedagem inclui desde pequenas pousadas a grandes hotéis. Todos, incluindo as agências e operadoras, devem reduzir suas margens para tornar o pacote mais acessível.

A sugestão dos coordenadores é que haja uma redução de 30%. "Não podemos estrangular os fornecedores, mas os preços serão necessariamente inferiores ao que é aplicado na baixa temporada", garante José Zuquim, presidente da Associação Brasileira das Operadoras Turísticas (Braztoa), entidade responsável pela execução do programa. "Essa é uma condição fundamental para a adesão ao programa."

Haverá pelo menos um pacote para cada Estado. Os pacotes têm algumas restrições, como prazo mínimo de 3 dias e máximo de 30 dias no destino. Como a oferta de leitos é maior do que a de assentos em vôos, estão previstos dois tipos de pacotes, com ou sem passagem aérea. "Não será possível comprar só a passagem, só o hotel ou só um passeio. O pacote tem de ser fechado", explica Paula.

O ministério também está em negociação com bancos que tenham interesse em financiar o pagamento dos pacotes com taxas especiais. A Caixa Econômica Federal - que já possui produtos específicos para turistas, como um cartão de crédito com parcelamento em até 24 meses e taxa de 2,9% ao mês - colocará à disposição toda a sua rede de agências e correspondentes bancários para que os turistas efetuem os pagamentos dos pacotes. "Só de lotéricas são mais de 9 mil pontos espalhados por todo o País", afirma o vice-presidente de negócios bancários da Caixa, Fábio Lenza.

Operadoras e agentes de viagem estão animados

O programa Vai Brasil conta com o entusiasmo, principalmente, das operadoras e dos agentes de viagem. As companhias aéreas, com algumas exceções, resistiram no começo, mas acabaram aderindo. A resistência tem explicação: a demanda nunca foi tão grande. O setor teve crescimento recorde em 2005, de 19,4%, e o desempenho continua alto neste início de ano. Além disso, turismo é só parte do negócio - a maioria das viagens é de trabalho. "Há dificuldades técnicas reais, mas não significa que sejam intransponíveis", diz o vice-presidente de Marketing da Gol, Tarcísio Gargioni. "O projeto é maravilhoso, o fato de ter mais gente voando é fantástico."

Nos bastidores, porém, não faltam críticas. "A idéia é linda e todos nós queremos ampliar o acesso dos mais pobres ao transporte aéreo. Mas turismo não se faz por decreto. Como é que uma pessoa de baixa renda vai chegar ao aeroporto se o taxi custa R$ 100?", argumenta executivo de uma grande empresa aérea.

Outro ponto é que hoje, com a proliferação dos vôos fretados, o turismo já está bem mais acessível. Maior operadora do País, a CVC oferece, por exemplo, pacote de oito dias em Porto Seguro por R$ 550, incluindo passagem e taxas aeroportuárias, com pagamento em 8 vezes sem juros.