Título: Argentina teme perda de mercado
Autor: Fabíola Salvador
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/02/2006, Economia & Negócios, p. B1,3
Pecuaristas ampliaram exportações no ano passado, depois de a aftosa ter sido detectada no Brasil
O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentícia (Senasa) confirmou ontem a existência de um foco de febre aftosa na Província de Corrientes, no nordeste do país, a 280 quilômetros da fronteira com o Rio Grande do Sul e a 25 quilômetros do Paraguai, no vilarejo de San Juan, município de San Luis del Palmar.
As autoridades sanitárias argentinas argumentam que já foram tomadas as medidas necessárias para controlar o foco. Mas, entre os pecuaristas, a preocupação é grande, já que a carne argentina pode perder, nos próximos dias, os mercados que havia reconquistado na Europa, Estados Unidos e Ásia, após a erradicação da febre aftosa no país em 2003.
Ignacio Gómez Álzaga, vice-presidente do mercado de Liniers, o maior da Argentina, admitiu que alguns países poderão fechar seus mercados à carne argentina. Segundo ele, é uma péssima notícia, já que a Argentina, "que havia voltado a jogar na primeira divisão, deverá novamente entrar em compasso de espera".
Além disso, com esse foco, os produtores argentinos também correm o risco de perder os mercados conquistados depois do embargo à carne brasileira - também por causa de focos de aftosa - em vários países das Américas, Europa e Ásia no semestre passado.
Em 2000 e em 2003, quando a Argentina registrou centenas de focos de aftosa, o país perdeu US$ 500 milhões anuais depois que os mercados externos fecharem suas portas à carne argentina.
EMBARGOS
No meio da tarde de ontem o primeiro país a anunciar embargo à carne argentina foi o Uruguai. Segundo o Ministério da Pecuária do Uruguai, "a entrada de todos os produtos e subprodutos de origem animal sem tratamento térmico fica proibida até que seja feita uma análise profunda sobre os riscos". Em 2001, o Uruguai também perdeu US$ 500 milhões em mercados externos por causa de um foco de aftosa. A fronteira do país está a menos de 400 quilômetros do foco de aftosa detectado em San Luis del Palmar.
Horas depois foi a vez do Chile anunciar embargo à carne argentina. Segundo a Divisão de Proteção Pecuária do Serviço Agrícola e de Gado do Chile, a importação de produtos de origem animal da Argentina "fica suspensa temporariamente".
O Paraguai anunciou que vai aumentar a fiscalização na área, proibindo a entrada de animais vivos da Província de Corrientes. Nos últimos meses, diante do surgimento de aftosa no Brasil, o governo paraguaio havia vacinado grande parte do rebanho do país.
O Paraguai é considerado país livre de aftosa com vacina, fato que lhe proporcionou exportações para 47 países, no valor de US$ 238 milhões. Já o Peru anunciou que ainda analisa a situação antes de tomar uma decisão.
MEDIDAS DE CONTROLE
Segundo o diretor do Senasa, Jorge Amaya, "já foram adotados todos os controles para limitar o foco de aftosa, mas a notícia é uma desgraça para o país". O organismo também informou que os animais doentes serão sacrificados. No total, 70 bovinos da raça Bradford, de idades entre 18 e 24 meses, que exibiram sinais da doença serão eliminados. Calcula-se que 3.067 cabeças de gado correm o risco de já terem sido contaminadas. O Senasa determinou que todo o comércio de gado na região do foco será suspenso por tempo indeterminado. O foco foi detectado no sábado passado.
O Senasa anunciou que o levantamento nas fazendas e municípios vizinhos não indicou a existência de foco adicional. Segundo a análise de laboratório, este foco foi causado pelo vírus tipo "O". Os analistas estão averiguando a origem da infecção. A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), os serviços sanitários dos países do Mercosul e os principais importadores de carne foram comunicados.
Entre 2000 e 2001, a Argentina registrou centenas de focos de aftosa. Na época, o governo do então presidente, Fernando de la Rúa, foi acusado de descaso com a doença, e de ter encoberto o surgimento de focos no interior do país. Diversos produtores denunciaram ameaças do governo para não notificar o surgimento de casos.
A OIE havia declarado a Argentina livre de aftosa no final de 2003. O último foco, em setembro daquele ano, foi detectado na província de Salta, na fronteira com a Bolívia.