Título: Irã planejou local para testes de armas atômicas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 09/02/2006, Internacional, p. A18,19
Segundo documentos obtidos pelos serviços de inteligência dos EUA, projeto prevê a construção de uma instalação subterrânea e um centro de controle
Engenheiros iranianos teriam completado planos sofisticados de uma instalação subterrânea profunda, segundo autoridades que examinaram documentos secretos em mãos da inteligência americana há mais de 20 meses.
Com sensores para medir pressão e calor, os planos para um túnel, de 400 metros, parecem destinados a um teste de explosão atômica subterrânea que um dia poderá anunciar a chegada do Irã à condição de potência nuclear, disseram autoridades.
Pelas estimativas de analistas de inteligência americanos e aliados, esse dia ainda pode estar dez anos distante - supondo-se que o Irã aplique seus recursos científicos e industriais no projeto e não encontre grandes obstáculos técnicos no caminho. Mas analistas do governo e inspetores da ONU estão divididos sobre se os líderes iranianos chegaram a essa decisão e sobre os progressos técnicos da iniciativa.
Nos três anos desde que o Irã foi obrigado a reconhecer que tem um programa secreto de enriquecimento de urânio, governos ocidentais e o organismo de fiscalização nuclear das Nações Unidas, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), reuniram evidências substanciais para verificar a afirmação do presidente Mahmud Ahmadinejad de que só pretende construir usinas nucleares para fins pacíficos. O caráter geralmente ambíguo e incompleto das evidências freqüentemente atrapalha os esforços de políticos, agentes da inteligência e aliados para um julgamento confiável sobre as intenções do Irã e uma solução diplomática da crise.
As plantas do local de teste não construído, nunca reveladas ao público anteriormente, parecem indicar às autoridades americanas pelo menos a ambição de se testar um explosivo nuclear.
Mas especialistas dos EUA e da ONU que estudaram os desenhos não datados disseram que eles não se encaixam perfeitamente num quadro mais amplo. Por exemplo, em nenhum lugar aparece neles a palavra "nuclear". Sua autoria é desconhecida, e não há evidência de um programa associado para adquirir os componentes, montar e construir no local.
"O projeto é consistente com um local de teste nuclear esquemático", disse uma fonte americana, observando que os desenhos prevêem uma equipe de controle de teste postada numa distância segura de 10 quilômetros do poço. Até onde a inteligência americana sabe, a idéia não saiu das pranchetas.
Outra evidência sugestiva está envolta em igual incerteza. Num laptop roubado por um cidadão iraniano em 2004, encontraram-se planos de uma empresa chamada Kimeya Madon para uma instalação de pequeno porte capaz de produzir urânio. Se construída, ela daria ao Irã um estoque secreto passível de ser enriquecido para uso combustível ou para a fabricação de bombas. Havia também no laptop - obtido pela inteligência americana - desenhos para modificar mísseis balísticos do Irã, capacitando-os para acomodar ogivas nucleares. Além dos arquivos do computador, um negociante de armas paquistanês preso deu recentemente declarações não corroboradas de que o Irã recebeu várias centrífugas avançadas, equipamento que ampliaria enormemente suas opções nucleares.
A inteligência americana considera os documentos do laptop autênticos, mas não pode provar isso. Analistas não descartam totalmente a possibilidade de que adversários internos dos líderes iranianos possam tê-los forjado para implicar o governo, ou de que os documentos tenham sido plantados por Teerã para convencer o Ocidente de que seu programa continua num estágio primitivo.