Título: Mais fotos de tortura em Abu Ghraib
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/02/2006, Internacional, p. A13
Novas imagens de presos iraquianos torturados agravam tensões já inflamadas pelas caricaturas de Maomé
Novas fotos e vídeo mostrando soldados americanos maltratando iraquianos no presídio de Abu Ghraib foram divulgadas ontem, primeiro na TV pública australiana SBS e depois em emissoras do mundo árabe.
As imagens ameaçam agravar as tensões no Iraque num momento em que os ânimos estão exaltados nos países muçulmanos por causa da publicação de caricaturas do profeta Maomé em jornais europeus. No Iraque, a tensão é ainda maior porque esta semana a imprensa da Grã-Bretanha divulgou fotos de soldados britânicos espancando civis iraquianos.
As imagens da SBS mostram presos nus, feridos e humilhados, cenas de tortura e desespero de presos. Incluem dois homens nus algemados um ao outro, outros cinco empilhados e um cachorro ameaçando um homem agachado contra uma parede. Numa das cenas levadas ao ar pelo programa Dateline, da TV SBS, um prisioneiro parece ser forçado a masturbar-se diante da câmera e em outra, um homem aparece batendo a cabeça na parede.
Segundo a emissora, as imagens fazem parte do conjunto de fotos que causaram revolta no mundo árabe em 2004, quando foram divulgadas pela primeira vez pela TV americana CBS. Em algumas das fotos aparecem militares dos EUA já condenados por esses abusos em Abu Ghraib, como o soldado Charles Graner, que cumpre pena de 10 anos pelos abusos.
O produtor do Dateline, Mike Carey, afirmou que o programa obteve um arquivo contendo centenas de fotos - algumas mostradas antes, outras, não - e não levou ao ar as consideradas chocantes demais, que mostravam cenas de humilhação sexual de prisioneiros. Carey se recusou a dizer como conseguiu o material.
O Departamento de Defesa dos EUA (Pentágono) confirmou a autenticidade das fotos e informou que correspondem ao conjunto de mais de cem fotos e videoteipes entregues à Justiça militar pelo soldado Joseph Darby no início de 2004. O Exército iniciou na época investigação sigilosa, mas o caso ganhou dimensão internacional com a exibição das fotos na CBS.
"O departamento acredita que a divulgação de mais imagens poderia somente inflamar mais os ânimos e possivelmente incitar violência desnecessária no mundo, pondo em perigo militares que estão servindo pelo mundo", disse o porta-voz do Departamento de Defesa (Pentágono), Bryan Whitman.
O secretário do Pentágono, Donald Rumsfeld, deveria dar ontem uma entrevista rotineira aos jornalistas em Washington, mas cancelou o compromisso alegando "razões de agenda".
"Essas novas fotos trazem de novo à tona a longa dor que começou com a ocupação do Iraque. Irritou profundamente, cortou meu coração ver meu povo sofrendo por nenhum motivo razoável", disse a professora iraquiana Hanan Adeeb. "Quando vejo isso compreendo porque muitas pessoas pensam que a única maneira de livrar o Iraque desse dilema é mandando os americanos embora", acrescentou Hanan. Outro iraquiano, o técnico Mehdi Jumbas, diz ter se sentido humilhado ao ver as cenas.
Tentando aplacar os ânimos, a ministra dos Direitos Humanos do Iraque, Nermin Othman, declarou ontem à TV al-Arabiya que desde o mês passado "só foi registrado um caso de tortura". "Houve uma mudança na política americana em relação aos detentos iraquianos", insistiu Othman. Mas grupos de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internanal, pediram uma investigação independente.
Diretores da Uniâo das Liberdades Civis Americanas (ACLU, na sigla em inglês), entidade que processou o governo dos EUA para ter acesso às fotos e vídeos, disseram ontem que não foram a fonte da SBS.
ATENTADOS
Uma bomba explodiu ontem numa rua central de Bagdá, matando quatro crianças que iam para a escola. Três delas eram irmãos, filhos de um ambulante. A explosão ocorreu perto de uma loja que comercializa bebidas alcóolicas. Após a invasão do Iraque, em março de 2003, grupos extremistas islâmicos passaram a atacar estabelecimentos que oferecem bebidas alcóolicas, bem como cinemas que exibem filmes ocidentais. Também em Bagdá, três carros-bomba explodiram ontem, matando seis pessoas e ferindo mais de dez.