Título: Países pressionam por definição no Haiti sem segundo turno
Autor: José Maria Mayrink
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/02/2006, Internacional, p. A12

Diante de evidências de fraudes, Préval seria proclamado mesmo tem ter obtido mais de 50% dos votos na eleição

Os embaixadores do Brasil, Canadá, Chile, Estados Unidos e França, os países mais comprometidos com o Haiti, se movimentam em Porto Príncipe para que o segundo colocado na eleição presidencial, Leslie Manigat, reconheça a vitória de René Préval, para dispensar um segundo turno e acabar com a crise criada pela contestação dos resultados.

Os diplomatas, aos quais se juntou ontem o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, esbarravam ontem na resistência de Manigat, que se mostrava irredutível e insistia numa segunda votação, prevista para 19 de março. O esforço da comunidade internacional tem o apoio do chefe da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), embaixador Juan Gabriel Valdés.

Pelos últimos resultados, divulgados ao meio-dia de segunda-feira, Préval tem 48,76%, apurados 90% dos votos, enquanto Manigat aparece com 11,83%. O terceiro colocado, Charles Baker, que tem 7,93%, também não aceita o cancelamento do segundo turno. "Seria ilegal e imoral, mas não teríamos o que fazer, se a comunidade internacional forçasse um acordo, porque não temos Justiça no Haiti", declarou Baker ao Estado, ontem, pelo telefone. "Se Préval obtiver 50% dos votos mais um, será o presidente; do contrário, a Constituição estaria sendo violada", acrescentou.

As suspeitas de fraude ou de erros grosseiros que, conforme Préval denunciou, comprometem as eleições, aumentaram com a descoberta de milhares de votos num depósito de lixo em Truitier, no norte de Porto Príncipe. A empresa Boucar Pest Control, que presta serviços à Minustah, admitiu que transportou caixas com votos, mas disse que "não fez mais do que cumprir o contrato para recolher, levar e despejar o lixo em Truitier".

O porta-voz da Minustah, David Wimhurst, confirmou o extravio de 27 mil votos em nove centros eleitorais no dia das eleições. "Foram encontrados votos no lixo, muitos deles válidos e outros brancos - incidente que está sendo investigado para se verificar até que ponto, conforme alegam os partidários de Préval, isso influencia os resultados das eleições", declarou ao Estado.

No Batalhão Haiti, o tenente-coronel Cunha Mattos, chefe de comunicação e imprensa, disse que as tropas não registraram irregularidades nos 88 postos de votação sob sua responsabilidade na região de Porto Príncipe. "Desse total, 15 que se encontravam em áreas de risco ficaram sob nossa guarda durante todo o processo". Em outros 31 postos, os fuzileiros navais fizeram a escolta e a guarda do material.

Em Porto Príncipe, ainda havia barricadas no centro da cidade. Em Pétion Ville, bairro da minoria rica, o comércio, que estava fechado desde sábado, reabriu com movimento acima do normal.